Darwin e Deus

Um blog sobre teoria da evolução, ciência, religião e a terra de ninguém entre elas

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Blog aborda os mais recentes estudos sobre a evolução do homem e dos demais seres vivos, explica o que a ciência tem a dizer sobre o fenômeno da fé e a história das religiões. É produzido pelo jornalista Reinaldo José Lopes.

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Chatice apócrifa

Por Reinaldo José Lopes

Os apócrifos são os textos que acabaram não sendo incluídos na Bíblia canônica, “oficial”. Existem dezenas de narrativas e tratados apócrifos, inclusive vários evangelhos. Andei lendo esse material — em busca de ideias de posts, entre outras coisas — e devo dizer que tive uma epifania. Esses livros não foram banidos da Bíblia por conterem ideias polêmicas que desafiam o poder da Igreja, informações secretas revolucionárias na linha de “O Código Da Vinci”. Nada disso: excluir os apócrifos foi pura questão de bom gosto literário, minha gente.

Exemplo: essa passagem do “Protoevangelho de Tiago”, história que narra o nascimento e infância da Virgem Maria. Nela, a mãe de Maria, Ana, lamenta-se por ser estéril (pouco antes da intervenção divina que a faz conceber):

Enquanto Ana olhava para o céu, ela viu um ninho de pardais no loureiro e chorou consigo mesma: “Ai de mim! Quem me deu à luz? Que tipo de ventre me carregou? Nasci como uma maldição diante dos filhos de Israel e fui desprezada; eles zombaram de mim e me baniram do Templo do Senhor, meu Deus. Ai de mim, com o que me pareço? Não sou como as aves do céu, porque até as aves do céu são férteis diante de ti, ó Senhor. Ai de mim, com o que me pareço? Não sou como os seres vivos sem mente, porque até os seres vivos sem mente são férteis diante de ti, ó Senhor. Ai de mim, com o que me pareço? Não sou como as feras selvagens da terra, porque até as feras selvagens da terra são férteis diante de ti, ó Senhor. Ai de mim, com o que me pareço? Não sou como estas águas, porque até estas águas são tranquilas, mas saltam daqui para ali, e seus peixes te abençoam, ó Senhor. Ai de mim, com o que me pareço? Não sou como este chão, pois até este chão produz fruto na estação certa e te abençoa, ó Senhor”.

O negócio é tão chato que chega a me dar labirintite. Os quatro evangelhos canônicos têm elegância machadiana perto disso aí.

Mas, claro, existem outros apócrifos que, se não melhoram o nível literário, de fato têm perspectivas bem divergentes em relação ao que acabaria se consolidando como a ortodoxia cristã. Espero abordá-los em breve.

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