Darwin e Deus

Um blog sobre teoria da evolução, ciência, religião e a terra de ninguém entre elas

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Blog aborda os mais recentes estudos sobre a evolução do homem e dos demais seres vivos, explica o que a ciência tem a dizer sobre o fenômeno da fé e a história das religiões. É produzido pelo jornalista Reinaldo José Lopes.

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Gênese africana

Por Reinaldo José Lopes

Já faz um tempinho, conversei com a pesquisadora americana Nancy Stevens, da Universidade de Ohio, sobre uma pesquisa publicada por ela e seus colegas na revista “Nature” sobre alguns fósseis muito especiais: os mais antigos exemplares do grupo dos grandes macacos (o de gibões, orangotangos, gorilas, chimpanzés e nós) e dos macacos com cauda do Velho Mundo (como babuínos e resos). Abaixo, Nancy faz a gentileza de explicar como eram os bichos e como os fósseis de 25 milhões nos ajudam a entender as origens da nossa linhagem. Confira a entrevista.

Para começar, alguns dados básicos: é possível dizer algo sobre o tamanho das duas espécies que vocês encontraram, considerando que só foram encontrados uma mandíbula e um dente?

Rukwapithecus [mais antigo grande macaco] teria aproximadamente 12 kg com base em estimativas de tamanho corporal derivadas do tamanho dos molares inferiores. Por causa de sua natureza mais fragmentada, é mais difícil estimar a massa corporal do Nsungwepithecus [o macaco com rabo], mas ele provavelmente seria um pouco menor.

Em primeiro plano, reconstrução artística do grande macaco “Rukwapithecus”, à dir. o Nsunwepithecus

E quanto ao ambiente onde eles viviam na Tanzânia?

A região era caracterizada por um vale de origem tectônica, com montanhas vulcânias, um sistema de áreas alagáveis semiáridas nas margens desse vale e pequenos rios e lagos rasos formando-se no centro dessa bacia. As análises geológicas, combinadas com dados sobre outros fósseis presentes no sítio, sugerem que a água ficava disponível de forma perene, com flutuações climáticas periódicas e sazonais.

É muito difícil imaginar porque os macacos do Velho Mundo e os grandes macacos tomaram caminhos evolutivos diferentes justamente há 25 milhões de anos? Que tipo de forças seletivas, por exemplo, estavam atuando em cada um desses grupos? 

Essa é uma questão realmente ótima, e é um dos mistérios que nós gostaríamos de resolver. Mas, no momento, a verdade é que não temos informação suficiente para enfrentar essa pergunta.

Eis o que sabemos, por enquanto: as faunas mais antigas naquela região registram uma massa de terra afroarábica [África e Arábia estavam juntas] replete de primatas de pequeno e médio porte. Boa parte da fauna não primata, tendo evoluído em isolamento por dezenas de milhões de anos, era em grande parte única do continente africano.

Já as faunas posteriores aos nossos fósseis documentam uma diversidade de primatas em que predominam as formas de tamanho maior. Esses primatas viviam entre vertebrados que, como resultado do intercâmbio de faunas de larga escala devido à colisão da península Arábica com a Eurásia, eram cada vez mais cosmopolitas [parecidos com os animais de outros continentes], começando a se parecer mais com a composição faunística da África de hoje.

Como e quando essa grande mudança nas comunidades de primatas ocorreu? Foi um subproduto da competição entre espécies de primatas? Teve relação com o aumento da competição e/ou da predação associada a mudanças nas comunidades de não primatas? Ou outra combinação de fatores? Nós não sabemos, na verdade. De fato, antes das nossas descobertas, só se conheciam três gêneros de primatas nesse período, então está claro que a descoberta recente de duas novas formas diz muito sobre a diversidade que provavelmente ainda precisa ser encontrada!

Mas uma observação importante a respeito dos nossos primatas é o seu tamanho maior quando comparado ao de primatas mais antigos. Outra coisa importante é que a separação entre grandes macacos e macacos do Velho Mundo agora está documentada antes da substituição de faunas de grande escala que eu mencionei antes. Talvez o aumento da heterogeneidade de habitats, associada com o desenvolvimento do Vale da África Oriental [grande vale de origem tectônica que se abriu na região] tenha contribuído para criar os nichos ecológicos potencialmente disponíveis para a diversificação desses primatas. Talvez a diversificação desses grupos tenha sido influenciada pelo ótimo climático [aumento da temperatura] global do fim do Oligoceno. Talvez a diversificação de primatas tenha sido influenciada por mudanças sutis e iniciais nas comunidades de vertebrados africanos. Mas o que causou a diversificação dos macacos do Velho Mundo e dos grandes macacos? Responder a essa pergunta exige muito mais dados, o que nos dá uma ótima razão para voltar a campo.

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