Darwin e Deus

Um blog sobre teoria da evolução, ciência, religião e a terra de ninguém entre elas

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Blog aborda os mais recentes estudos sobre a evolução do homem e dos demais seres vivos, explica o que a ciência tem a dizer sobre o fenômeno da fé e a história das religiões. É produzido pelo jornalista Reinaldo José Lopes.

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Cadê o tucano que estava aqui

Por Reinaldo José Lopes

Gostaria de chamar a atenção do gentil leitor para a importante reportagem publicada hoje nesta Folha por minha amiga Giuliana Miranda. Ela documenta, em escala mais focada, um fenômeno evolutivo mais geral que tem acontecido cada vez mais nas florestas brasileiras: a “orfandade” das sementes de árvores.

Essa linha de pesquisa tem sido bastante trabalhada por Mauro Galetti e seus colegas da Unesp (Universidade Estadual Paulista) de Rio Claro. No estudo abordado pela Giuliana, que acaba de sair na prestigiosa revista “Science”, eles mostraram que o palmito-juçara tem ficado órfão das grandes aves — como tucanos — que antigamente costumavam comer seus frutos e dispersar suas sementes, mantendo a população dessa palmeira saudável. O que acontece é que, sem aves grandalhonas, só os frutos com sementes relativamente pequenas continuam sendo devorados, o que já está tendo efeitos evolutivos — seleção natural em ação — sobre a planta: cada vez mais as sementes tendem a ficar menores, pois só as pequenas cabem no papo das aves também pequenas.

O resultado disso, como a Giuliana conta, pode ser desastroso para o palmito no longo prazo, porque sementes menores, com menos água, tendem a sobreviver com menos sucesso a períodos de seca. O fim dos tucanos e afins, portanto, pode afundar essa palmeira também.

Vale dizer, no entanto, que várias coisas parecidas têm acontecido nos últimos 10 mil anos, desde que se extinguiu a megafauna — o conjunto de grandes mamíferos nativos das Américas na Era do Gelo, como mastodontes, preguiças-gigantes e outros. Galetti e seus colegas acharam, em vários biomas brasileiros, frutos grandalhões (o cacau é um exemplo) que têm as mesmas características morfológicas de frutos dispersados naturalmente por elefantes na África.

É bem possível que essas plantas estejam sofrendo uma lenta erosão genética, já que não conseguem mais se reproduzir com eficiência a longas distâncias sem uma ajudinha de mamíferos grandalhões. E a ação humana, caçando seletivamente antas e macacos como o avantajado muriqui, só tem piorado esse cenário, com consequências imprevisíveis para a futura saúde das nossas florestas. Contei um pouco dessa história nesta reportagem da revista “Unesp Ciência”.

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