Darwin e Deus

Um blog sobre teoria da evolução, ciência, religião e a terra de ninguém entre elas

 -

Blog aborda os mais recentes estudos sobre a evolução do homem e dos demais seres vivos, explica o que a ciência tem a dizer sobre o fenômeno da fé e a história das religiões. É produzido pelo jornalista Reinaldo José Lopes.

Perfil completo

Publicidade
Publicidade
Publicidade
Publicidade

Diário do caçador de dinossauros

Por Reinaldo José Lopes

Dia de dinossauro “novo” no Brasil é dia de alegria, gente bonita. Tem matéria minha na Folha de hoje pra contar a história do novo bicho, mas achei que seria bacana colocar aqui a íntegra do relato de William Nava, do Museu de Paleontologia de Marília (SP), um dos persistentes caçadores de fósseis do Brasil, sobre como ele topou com o finado dino pescoçudo. Confiram o que ele me contou por e-mail. Com vocês, o diário do caçador de dinossauros.  

“Em janeiro do ano 2000 estive na Unesp de Presidente Prudente por conta de assuntos relacionados à disciplina de História que eu cursava na Unesp, mas no campus de Assis.

Na saída de P. Prudente observei num terreno próximo à rodovia Raposo Tavares vários blocos de arenitos que haviam sido retirados das proximidades. Naquela ocasião o trecho dessa estrada estava sendo ampliado, por isso a remoção das rochas. 

Resolvi investigar, claro, pois o trabalho de todo paleontólogo é investigativo, precisa analisar as rochas na busca por possíveis fósseis. Costumo dizer que é um trabalho de detetive, de Sherlock Holmes, rsrsrs.

E qual não foi a surpresa ao me deparar com inúmeros restos ósseos aflorando de alguns desses blocos de arenito e siltito (outro tipo de rocha). São rochas da Formação Adamantina, Cretáceo Superior. Logo de cara fui encontrando pedaços de costelas, vértebras, alguns restos ósseos já destruídos pelo tempo, todos associados a dinossauros, além de dentes de dinossauros herbívoros, carnívoros e dentes também de crocodilianos. Havia igualmente muitos coprólitos (excrementos fossilizados, alguns contendo escamas de peixe incrustadas), restos de tartarugas e de peixes.

Num dos grandes blocos que jaziam no terreno notei diversos ossos muito próximos: alguns estavam soltos da rocha, outros ainda presos ao arenito. De qualquer forma me pus a coletá-los, antes que se perdessem. Coletei vértebras cervicais, partes ósseas da cintura pélvica (ísquio e ílio bem fragmentados), parte das vértebras sacrais incompletas; costelas, um pequeno bloco de arenito fino com um osso “meio curvo” que depois, em Marília, concluí que era fragmento de dentário/mandíbula, mas não dava para ver dente algum devido à posição na rocha; um dente isolado, uma tíbia quase completa, um metatarsal e falanges. Encontrar esses fósseis foi um momento emocionante, pois a morfologia dos ossos me indicou estar diante do que era parte do esqueleto de um titanossauro.

Trouxe tudo para Marília, preparei (retirada de sedimentos) cuidadosamente alguns materiais, colei aqueles que estavam em condições de reconstituição, cataloguei como pertencentes a um dinossauro saurópode, como disse, um titanossauro, e os deixei juntos, dentro de caixas. 

Então, em 2004, parte dele foi para o RJ, para melhor preparação.

Enfim, os estudos comparativos utilizando principalmente o dentário, revelaram um novo gênero e espécie de titanossauro para o Brasil. Como partes do crânio desses animais são “ouro” nas rochas sedimentares do Cretáceo do Brasil, esse achado revela-se de grande importância, pois fornece inúmeras informações acerca da morfologia do animal, e outros dados que o artigo traz e que a Elaine [Machado, primeira autora da pesquisa] poderá te falar melhor.”

Blogs da Folha