Darwin e Deus

Um blog sobre teoria da evolução, ciência, religião e a terra de ninguém entre elas

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Blog aborda os mais recentes estudos sobre a evolução do homem e dos demais seres vivos, explica o que a ciência tem a dizer sobre o fenômeno da fé e a história das religiões. É produzido pelo jornalista Reinaldo José Lopes.

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Momento merchan

Por Reinaldo José Lopes

Uma passada rápida por aqui pra fazer um breve merchan: já está nas bancas a edição especial da revista “Superinteressante” que eu tive o prazer de editar e escrever. O tema é a história dos primeiros séculos do cristianismo, em especial a grande diversidade de textos que se autodenominavam Evangelhos e as diferentes perspectivas sobre quem era Jesus Cristo — a maioria deles conhecida como apócrifos hoje. Quem se interessar pela revista poderá ler também quatro Evangelhos apócrifos na íntegra, dois dos quais eu mesmo traduzi do grego.

Abaixo, um trechinho de uma das reportagens da revista, na qual explico quem eram os misteriosos cristãos conhecidos como gnósticos.

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Tanto no mundo antigo quanto no mundo de hoje, há quem tenha dificuldade em interpretar o significado das falas de Jesus registradas no Novo Testamento. Há indícios de que ele simplesmente gostava de usar parábolas e desafiar seus ouvintes com comparações estranhas e enigmáticas. Mas mesmo as frases mais obscuras da Bíblia são um primor de simplicidade perto de certos ditos do texto apócrifo conhecido como Evangelho de Tomé. Por exemplo: “Este céu passará, e o céu acima dele passará. E os mortos não estão vivos, e os vivos não morrerão. Nos dias em que comíeis o que estava morto, fazíeis com que ele vivesse. Quanto chegardes à luz, o que fareis? No dia em que éreis um, tornastes-vos dois. Mas, quando vos transformardes em dois, o que fareis?”.

Você provavelmente achou essas frases totalmente impenetráveis, o que significa que elas se encaixam no perfil dos ensinamentos do gnosticismo, um conjunto de correntes religiosas e filosóficas da Antiguidade que acabou influenciando muitos grupos cristãos primitivos.

O principal ponto em comum entre os gnósticos é a ênfase na busca pelo conhecimento esotérico e secreto (em grego, conhecimento é gnósis, ou seja, poderíamos traduzir “gnósticos” como “os conhecedores”). Para os cristãos que adotavam essa perspectiva, Jesus não veio ao mundo para livrar a humanidade de seus pecados por meio de sua morte e ressurreição, mas sim para trazer aos homens o conhecimento secreto sobre sua verdadeira origem, sua natureza divina, e libertá-los por meio dessa iluminação. Por definição, o acesso a esse conhecimento não é para qualquer um, mas apenas para aqueles que se tornam dignos dele por meio de estudo e contemplação mística – daí a ênfase no mistério e a dificuldade de interpretar textos como o Evangelho de Tomé sem a “senha” correta.

Até meados do século 20, o conhecimento sobre o pensamento gnóstico era muito limitado e, na maior parte das vezes, os historiadores acabavam dependendo dos relatos feitos a respeito do gnosticismo pelos chamados “padres da Igreja”, pensadores mais alinhados com as ideias cristãs ortodoxas que acabaram prevalecendo. Como esses sujeitos viam os gnósticos como hereges perigosos, não dá para simplesmente confiar na capacidade deles de fazer um relato imparcial sobre a crença de seus arqui-inimigos.

“Os autores ortodoxos diziam que os gnósticos promoviam orgias, bebiam sangue e praticavam o canibalismo, coisas de que os demais cristãos também eram acusados nessa época, ou seja, provavelmente é mera difamação”, afirma Dale Martin, professor de estudos religiosos da Universidade Yale (EUA).

Essa situação começou a mudar nos anos 1950, quando os textos descobertos em Nag Hammadi, no sul do Egito, começaram a ser publicados, como vimos na primeira reportagem desta edição. Hoje, os especialistas na história do cristianismo antigo possuem à sua disposição dezenas de textos gnósticos, muitos dos quais completos, o que proporciona uma visão muito mais clara sobre o pensamento dos “conhecedores”, diz Martin – embora alguns mistérios ainda continuem firmes.

Por exemplo, não se sabe exatamente como o gnosticismo começou a evoluir, e os pesquisadores ainda debatem se as ideias gnósticas são um fenômeno exclusivamente cristão ou se havia grupos judeus e pagãos que também podem ser incluídos nessa categoria. “Parece que as pessoas que escreveram esses documentos eram intelectuais que tinham ficado bem impressionados com os ensinamentos de Jesus, com as escrituras judaicas, mas que interpretavam tudo isso pelas lentes das visões filosóficas da época, em especial o platonismo popular”, explica o pesquisador de Yale.

“Platonismo”, como talvez você saiba, refere-se aos ensinamentos do filósofo grego Platão (424 a.C.-348 a.C.), que geraram toda uma escola de discípulos na Antiguidade. Temas importantes da obra de Platão e de seus seguidores são, por exemplo, a ideia de que a matéria de nossos corpos é imperfeita, sendo habitada por uma alma perfeita que, ao se encarnar, perde o conhecimento da perfeição eterna e divina que tinha antes (doutrina conhecida como dualismo, também adotada pelos gnósticos); e a de que as coisas supostamente “reais” que enxergamos são apenas a sombra desse mundo imaculado, o “mundo das ideias”.

E Platão também deu o pontapé inicial no conceito de que o Deus supremo não criou o Universo, mas que o Cosmos teria sido moldado por uma entidade subordinada, conhecida como Demiurgo (algo como “artesão” em grego). Inicialmente, acreditava-se que esse Demiurgo era apenas um servo “do bem” do Deus verdadeiro, mas alguns gnósticos passaram a achar que ele podia ser, na verdade, um sujeito de más intenções, usando essa hipótese para dar uma interpretação nova e radical ao Antigo Testamento, como veremos a seguir.

 

Viva a diferença

Mesmo dentro do que, em linhas gerais, podemos classificar de modo geral como gnosticismo, existe uma imensa variedade de perspectivas sobre os pontos fundamentais da crença cristã. Examinando cuidadosamente os textos da “biblioteca” de Nag Hammadi, por exemplo, os especialistas conseguiram identificar ao menos três grandes escolas de pensamento, as quais, às vezes, parecem ter tanta coisa em comum entre si quanto essa biblioteca tem com o cristianismo considerado ortodoxo – ou seja, não muita coisa, na verdade.

A mais famosa dessas correntes pode ser chamada de cristianismo tomasino – ou seja, de Tomé, mais conhecido entre nós como o apóstolo “cético”, o homem do “ver para crer”. Tomé só acredita na ressurreição de Jesus quando conversa com Cristo depois que este se levanta dos mortos e coloca seus dedos nas feridas deixadas pela crucificação, certificando-se de que aquele é realmente um corpo humano vivo. Essa história, narrada no Evangelho de João, foi representada por inúmeros artistas cristãos ao longo dos séculos, virando o momento definidor do apóstolo.

Nos textos de Nag Hammadi, no entanto, não há nenhum sinal desse ceticismo de Tomé, embora eles mencionem um apelido do discípulo que também aparece no Evangelho de João: Dídimo, ou “gêmeo”, em grego. Aliás, trata-se de uma tradução do apelido original do apóstolo, pois Tomé (ou Tomás, outra variante do nome) vem da palavra aramaica toma, que também significa gêmeo. A abertura do Evangelho de Tomé diz que as falas de Jesus presentes no texto foram registradas por “Dídimo Judas Tomé”. Judas, portanto, seria o nome verdadeiro do sujeito apelidado de “Gêmeo”.

Mas gêmeo de quem? É aí que, ao menos do ponto de vista dos cristãos modernos, a coisa começa a ficar maluca. Aparentemente, para alguns seguidores de Jesus na Antiguidade, Judas Tomé era gêmeo de ninguém menos que o próprio Cristo. Afinal, ninguém melhor do que o homem que compartilhou um útero com Jesus e passou sua vida inteira ao lado dele para registrar com precisão a mensagem do Nazareno, correto?

Isso não necessariamente significa que, para os cristãos tomasinos, Tomé fosse filho de Deus e fruto do Espírito Santo como Jesus. Na verdade, nas mitologias da época, havia até precedentes para a ideia de que um deus poderia gerar seu filho unindo-se a uma mortal enquanto, ao mesmo tempo e no mesmo útero, ela gestava uma criança totalmente humana. Contava-se, por exemplo, que os heróis gregos gêmeos Castor e Pólux eram uma dupla desse tipo – enquanto o pai de Pólux era Zeus, o rei dos deuses, Castor teria sido gerado por Tíndaro, rei de Esparta e marido da mãe dos dois, Leda.

Segundo um texto apócrifo, os Atos de Tomé, o apóstolo seria até bastante parecido fisicamente com Jesus (embora, pelo visto, não fossem gêmeos idênticos). É claro que essa semelhança também pode receber uma interpretação mística, bem a gosto dos gnósticos, como explicou Marvin Meyer (1948-2012), professor da Universidade Chapman (EUA), em seu livro The Nag Hammadi Scriptures (“As Escrituras de Nag Hammadi”, ainda inédito no Brasil): “O conceito do gêmeo não descreve apenas as conexões familiares entre Jesus e Judas, mas também funciona como uma metáfora da relação entre uma pessoa e sua contraparte espiritual – seja Jesus, seja o alter ego celestial da pessoa”.

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