Cristianismo das Arábias

Por Reinaldo José Lopes

A chamada Antiguidade Tardia, o período algo impreciso que vai dos últimos séculos do Império Romano do Ocidente até mais ou menos o ano 700 d.C., é um dos períodos mais interessantes e inusitados da história do planeta. Na Folha de hoje, o gentil leitor pode ter acesso a uma reportagem que fiz sobre achados arqueológicos no Iêmen (sudoeste da Arábia), trazendo detalhes sobre um reinado cristão que existiu por lá a partir do ano 525 d.C., poucas décadas antes do nascimento de Maomé. 

Alto-relevo retrata rei cristão da Arábia: curti esse bigode

 

 

Pra mim, é quase como um exercício de história alternativa, aquelas narrativas de ficção científica do tipo “o que aconteceria se” (se o Brasil fosse descoberto por ingleses, ou se os chineses tivessem criado colônias na América etc.) — no caso, o que aconteceria num mundo em que o Islã não existisse.

Conversei sobre o achado com Peter Heather, historiador especializado em Antiguidade Tardia do King’s College de Londres. Veja como ele interpreta o significado da descoberta.

“Caro Reinaldo,

Belo artigo: eu não tinha visto esse alto-relevo em especial antes. A existência de um reino cristão iemenita no século 6º está bastante bem documentada, de fato, então não vejo problemas nesse ponto, e o Império Romano do Oriente e o Império Sassânida da Pérsia certamente competiam pela hegemonia sobre o comércio na área da desembocadura do mar Vermelho.

Na minha opinião, esses achados também são críticos para entender a ascensão do Islã no sentido de que — ao julgar pelo Corão que temos (o qual é, de longe, a mais antiga fonte islâmica), Maomé, em termos intelectuais/religiosos, estava saltando entre o judaísmo e o cristianismo ao formatar sua mensagem (em vez de usar, para isso, os cultos árabes nativos: a única referência a eles são os famosos mas curtíssimos versos satânicos: menos de 1% do texto do Corão). Se ele fez isso, e se sua mensagem teve a força que teve entre os árabes do século 7º d.C., é óbvio que ideias monoteístas judaico-cristãs estavam circulando amplamente na região.”

Rápido parêntese: “versos satânicos”, segundo a tradição muçulmana, seriam trechos do Corão que originalmente Maomé teria pronunciado ao ser enganado pelo Diabo, trechos esses que louvavam deusas pagãs. Depois, com a ajuda do anjo Gabriel (é, aquele que teria falado com Maria), Maomé teria reformulado os trechos.