Histórias de Natal, parte 2: genealogias

Por Reinaldo José Lopes
Rei Davi retratado como imperador bizantino
Rei Davi retratado como imperador bizantino. Crédito: Reprodução.

Aviso aos navegantes: este é o segundo post de nossa série sobre aspectos históricos das narrativas bíblicas sobre o Natal. Para ler a introdução, basta clicar aqui.

Muita gente costuma passar batido pelas enormes genealogias que costumam aparecer nos textos bíblicos. Mas, para quem tem olhos para ver, elas são uma fonte riquíssima de informação, seja sob o ponto de vista histórico, seja sob o prisma teológico. No mundo antigo (como, de resto, até o começo do século passado, na verdade), comprovar a descendência a partir de algum ancestral famoso era um elemento importante de autoafirmação social e até política. E o mesmo vale para as listas de dezenas de ancestrais de Jesus que aparecem no Evangelho de Mateus e no Evangelho de Lucas.

Começando com o mais óbvio, Mateus e Lucas enxergam os ancestrais de Cristo de maneiras bem diferentes. (Para quem tem interesse em acompanhar a discussão mais detalhadamente, vale a pena abrir sua Bíblia em Mateus, capítulo, versículos de 1 a 16, e em Lucas, capítulo 3, versículos de 23 a 38). O Evangelho de Mateus, o primeiro do Novo Testamento, inspira-se diretamente nas genealogias do Gênesis, o primeiro livro do Antigo Testamento, certamente porque tem o ponto de vista mais judaico de todos os evangelistas. Não é à toa que, logo de cara, Jesus recebe o título de “filho de Davi” (o maior rei da história de Israel) e “filho de Abraão” (o primeiro patriarca do povo israelita). A genealogia é o que nós esperaríamos hoje: começa-se com o ancestral mais antigo, Abraão, e chega-se ao descendente mais recente, Jesus.

Já Lucas, muito provavelmente escrevendo para um público não judeu, e talvez não sendo também de origem judaica, adota o que poderíamos chamar de uma perspectiva mais universalista. De um jeito mais esquisito para o nosso ponto de vista, começa com o próprio Jesus e vai recuando no tempo — mas, desta vez, em vez de parar em Abraão, chega até o próprio Adão, o “pai” de toda a raça humana, e ressalta ainda que Adão era “filho de Deus”, deixando claro que o interesse de Lucas é pregar Jesus como Salvador não só para os judeus, mas para toda a humanidade.

Não que esse preocupação estivesse totalmente ausente dos pensamentos de Mateus, no entanto. O primeiro evangelista é o único, em sua lista genealógica, a citar mulheres, e não só homens — e, curiosamente, com exceção de Maria, são todas mulheres não israelitas, originalmente “pagãs”: Tamar, Raab e Rute. Talvez seja uma pista de como os não judeus também seriam incorporados à “família” do Messias.

NOMES QUE NÃO BATEM

Anjo impede Abraão de sacrificar seu filho Isaac
Anjo impede Abraão de sacrificar seu filho Isaac. Crédito: Reprodução

Até aí, tudo OK. Cada evangelista tinha sua própria técnica literária e seu público-alvo. A coisa começa a se complicar, no entanto — ao menos do ponto de vista de quem acha que cada vírgula do texto bíblico é a verdade literal incontestável —  quando se olha com atenção o “miolo” das genealogias. Eles simplesmente não batem, e as diferenças estão longe de serem triviais.

Mateus, por exemplo, organiza sua genealogia em três grandes períodos de 14 gerações. O período do meio, o da monarquia israelita, mostra como ancestrais de Jesus todos os reis de Israel (e, depois, do reino de Judá), de Davi até a destruição de Jerusalém pelos babilônios em 586 a.C. Na fase seguinte, chegamos a José e Jesus — só que há um problema aritmético sério: a conta dá 13 gerações, não 14, como Mateus explicitamente afirma. Ou algum escriba que copiou o evangelho “pulou” um ancestral, que desde então ficou perdido, ou Mateus simplesmente errou a conta. Mas o rolo é ainda mais complexo.

Ocorre que, de Davi em diante — um período de cerca de mil anos, veja bem — só três nomes de ancestrais de Jesus batem entre Mateus e Lucas: Salatiel, Zorobabel (na época do exílio dos judeus na Babilônia) e o próprio José. Segundo o primeiro evangelista, Jesus seria descendente direto do rei Salomão, filho de Davi, enquanto Lucas diz que ele descendia de Natã, um dos filhos menos conhecidos do rei Davi. O que é mais desconcertante ainda, enquanto Mateus conta apenas 14 gerações (oops, 13) do exílio da Babilônia até Jesus, Lucas conta… 22 gerações. Conciliar as duas listas como factualmente corretas com matemática não dá (talvez com matemágica…).

“Ah, mas a genealogia de Lucas é a de Maria e a de Mateus é a de José, fácil”, diriam alguns. Essa é a solução que algumas tradições religiosas adotaram, mas o problema — insuperável, a meu ver — é que Lucas diz explicitamente que aquela lista de ancestrais é a de José, não de Maria. Ademais, o próprio Lucas diz que Isabel, mãe de João Batista e “parenta” de Maria, era descendente do sacerdote Aarão, e não do rei Davi. O que, salvo engano, indica que Maria era da linhagem sacerdotal israelita, não da linhagem real judaica — ao menos segundo o evangelista.

Como, então, explicar as diferentes genealogias? Cada evangelista pode ter tido acesso a documentos diferentes listando os descendentes de Davi para montar seu “álbum de família” de Jesus. É o tipo de coisa que acaba ficando bagunçada depois de um milênio.

FILHO DE DAVI?

Uma última nota sobre questões genealógicas envolvendo o Nazareno: faz algum sentido histórico se perguntar se ele descendia mesmo do jovem rei que matou Golias?

São José com o menino Jesus. Crédito: Reprodução
São José com o menino Jesus. Crédito: Reprodução

Do ponto de vista estritamente secular, deixando a fé entre parênteses, a resposta curta é: não dá para saber. Sem DNA dos dois (Davi e Jesus), nunca saberemos. Mas o que podemos nos perguntar é se os contemporâneos de Jesus acreditavam nisso, e nesse caso é provável que a resposta seja afirmativa.

Os mais antigos documentos cristãos, as cartas do apóstolo Paulo, escritas nos anos 50 do século 1º d.C. (uns 20 anos depois da morte do Nazareno, portanto), já mencionam a tradição da ascendência davídica. Em sua Carta aos Romanos, Paulo diz logo na abertura da epístola que Jesus tinha “nascido da semente de Davi, segundo a carne”. A afirmação parece estar inserida numa espécie de profissão de fé cristã muito antiga, que o próprio Paulo não formulou, mas apenas estaria citando. Parece, portanto, que a crença na pertença de Cristo à família de Davi era comum entre os primeiros cristãos.

Uma consideração probabilística cabe aí também, claro: se os reis israelitas tinham 5% da vasta quantidade de esposas e concubinas atribuídas a eles nos textos do Antigo Testamento, depois de um milênio, torna-se virtualmente certo que Jesus descendia de Davi — ele e boa parte da população judaica de seu tempo, claro.