Histórias de Natal, parte 3: quando Jesus nasceu?

Por Reinaldo José Lopes

Aviso aos navegantes: este é o terceiro post de nossa série sobre aspectos históricos das narrativas bíblicas sobre o Natal. Para ler os posts anteriores, basta clicar nos links abaixo:

Introdução

As genealogias de Jesus

Nosso tema de hoje parece absurdamente simples, mas na verdade é um vespeiro. Afinal, se estamos em 2013, Jesus nasceu há 2013 anos, certo? Errado, a começar pelo fato de que ninguém conhecia o zero no Mediterrâneo da Antiguidade, então começamos a contar os anos diretamente no ano 1, em vez de esperar que todos os 12 meses do “ano zero” transcorressem. Além disso, como muita gente talvez saiba, já é consensual entre os historiadores que a própria fixação da data do nascimento de Jesus como o início do nosso calendário, feita originalmente pelo monge Dionísio, o Pequeno (470-544), infelizmente contém um erro de cálculo.

Dionísio, nascido em algum lugar entre as atuais Romênia e Bulgária, fixou a data do nascimento  de Cristo no ano 753 AUC (sigla da expressão latina “ab urbe condita”, ou seja, “depois da fundação da cidade” — a cidade em questão sendo Roma). Ocorre que, se essa data fosse a correta, Jesus teria vindo ao mundo depois da morte do rei Herodes, o Grande (o qual partiu desta para uma melhor — ou pior, levando em conta as malvadezas que praticou — no ano 4 a.C.). E, se há uma coisa a respeito da qual todas as fontes antigas concordam, é que Jesus nasceu quando Herodes ainda era rei. No mínimo, portanto, no ano 4 a.C., ou antes.

Mas quando exatamente, afinal? O Evangelho de Mateus é vago — diz apenas que foi “no tempo do rei Herodes”. Já Lucas parece ser muito mais detalhado e promissor para chegarmos a uma resposta histórica. Afinal ele associa a ida de Maria a José de Nazaré a Belém para cumprir as determinações de um censo decretado pelo imperador Augusto para todos os moradores do Império Romano. Esse censo teria sido decretado quando Quirino era o governador da Síria e, de novo, quando Herodes reinava na Judeia. Além disso, Lucas também diz que Jesus tinha “cerca de 30 anos” no décimo-quinto ano do reinado do imperador Tibério, ou seja, em torno dos anos 28-29 d.C. do nosso calendário. Agora ficou fácil, hein?

Só que não. O problema, de novo, é que as informações não batem.

Começando do começo: não há indícios, fora do Novo Testamento, de que Augusto tenha de fato ordenado um recenseamento geral de todos os habitantes de seu império em qualquer momento – nem que, aliás, esse tipo de censo de todos os domínios romanos tenha jamais acontecido.

É verdade que Augusto pediu, certa feita, que os governadores das províncias fizessem uma lista de todos os cidadãos romanos de suas jurisdições, mas isso é algo bem diferente, porque os cidadãos romanos eram uma proporção minúscula de gente privilegiada e da classe alta no século 1 d.C. – carpinteiros de Nazaré certamente não se encaixavam nessa categoria. E, para piorar a coisa do ponto de vista cronológico, essa ordem de Augusto só foi dada no ano 6 – dez anos depois da morte de Herodes, portanto.

E tem mais esquisitices cronológicas nessa história. O consenso entre historiadores é que Quirino só se tornou governador romano da Síria depois da morte de Herodes — de novo, no famigerado ano 6 d.C., permanecendo no cargo até o ano 12. Pode até ser que ele tenha tido uma primeira passagem pelo governo da Síria, mas ainda assim no ano 3 a.C. – o rei vilão dos judeus já tinha morrido, de qualquer modo.

SÓCIO DOS ROMANOS

Outros detalhes importantes não são propriamente cronológicos, mas de plausibilidade histórica mesmo. Herodes era o que os romanos chamavam de rex socius, um soberano aliado, e as populações sob o mando desse tipo de rei títere dos romanos não costumavam ser recenseadas porque o propósito desse tipo de censo era cobrar impostos, coisa que Roma não fazia diretamente nesses casos.

Outro ponto esquisito é a ideia de que José, um descendente de Davi, teria de ir se registrar em Belém, cidade de seus ancestrais remotos (Davi nasceu em Belém cerca de mil anos antes de Jesus, é bom lembrar). A prática romana era exigir que apenas o chefe de família se registrasse num centro administrativo próximo, para facilitar as coisas – José, portanto, deveria ir até a cidade galileia de Séforis, não a Belém.

É por tudo isso que a verdadeira “data de nascimento” do Nazareno infelizmente continua sendo vaga. Os detalhes usados por Lucas provavelmente são criações literárias usadas para situar Jesus no contexto do Império Romano e, talvez, de retratá-lo em contraposição aos imperadores romanos — tema que vamos explorar melhor no próximo post.