BBB ajuda a ensinar evolução da sexualidade?

Por Reinaldo José Lopes

Acabo de fazer uma curiosíssima viagem pelo túnel do tempo (“It’s timey-wimey, folks”, diria o Doctor). Meu grande amigo Salvador Nogueira, autor do imperdível blog “Mensageiro Sideral” aqui mesmo no site desta Folha, teve uma grata surpresa ao descobrir que um antigo texto seu da época em que trabalhávamos no portal “G1”, uma paródia do Big Brother Brasil na qual os participantes da “casa mais vigiada do Brasil” na verdade eram físicos do porte de Einstein e Hubble discutindo a teoria do Big Bang, inspirou estudos sobre educação científica e até uma peça de teatro.

Eu não tive a mesma sorte, pelo menos até onde eu sei, mas naquele longínquo ano de 2007 eu também me pus a usar a ambientação do BBB (do qual eu era espectador assíduo na época; hoje não mais assisto) para falar de ciência — mais especificamente, a respeito das hipóteses que tentam explicar a evolução dos sistemas de acasalamento entre primatas como nós.

A verdade é que esse é um velho truque de jornalistas de ciência como nós, em especial quando a gente trabalha na internet: pegar um assunto que está mobilizando todo mundo, por mais fútil que ele aparentemente seja, e tentar enxergar o que há de ciência nele (e acredite, sempre dá um caldo). Na época, recordo que o bafafá era a existência de um triângulo amoroso na casa, daí o gancho para falar de evolução da sexualidade.

Seguindo o exemplo do Salvador, não resisti à tentação de colocar o texto original abaixo, apesar das referências megadatadas. O blog que eu fazia no “G1” foi tirado do ar logo depois de minha saída do site, mas sempre dá pra ressuscitar essas coisas na internet. Confiram!

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Machos, fêmeas, câmeras e triângulos

Gostaria de convidá-lo a bancar o Einstein, nobre leitor. Não requer prática nem tampouco habilidade. Uma das técnicas preferidas do célebre físico bigodudo era o chamado “experimento mental” – imaginar um cenário de possibilidades e ver onde ele ia parar, por mais doido que fosse o resultado. Sugiro que a gente faça dois rápidos experimentos mentais em seguida, usando como cenário para eles – você já vai entender por quê – a indefectível casa do Big Brother Brasil.

Experimento 1: De repente, na casa, ninguém é de ninguém. Não, eu quero dizer ninguém é de ninguém mesmo: Diego finalmente agarra Siri – enquanto recebe carícias íntimas simultâneas de Bruno e Airton. Na piscina, Fani, Analy e Carol estão num chamego só, e Fernando e Flávia logo entram na brincadeira. Sem a menor cerimônia, o pessoal vai trocando de parceiro(s) minuto a minuto – fica até difícil de acompanhar.

Experimento 2: Homens e mulheres da casa formam casais apaixonadíssimos e muito grudados. Cada um ocupa um cantinho da casa para montar seu ninho de amor e não deixa mais ninguém chegar perto. Não é só força de expressão: a mera proximidade de um outro casal faz os donos de cada cantinho explodirem em gritos, impropérios e quase partirem para a porrada.

Sou capaz de apostar que qualquer um desses cenários, caso acontecesse para valer, ia deixar muito telespectador chocado, e possivelmente enojado – o que não ocorre no caso do atual triângulo amoroso de Diego, Siri e Fani. Quer saber de onde tirei essas idéias pervertidas?

Ora, da vida real, é claro. Cada um dos cenários descreve a vida sexual e familiar de dois dos parentes mais próximos do homem. São eles o chimpanzé-pigmeu ou bonobo (experimento 1) e as várias espécies de gibão (experimento 2). O primeiro macaco vive em constante promiscuidade pansexual (macho com macho, macho com fêmea, fêmea com fêmea…), enquanto os gibões são os monógamos mais fiéis e isolacionistas que a gente é capaz de imaginar. Por que diabos, então, a nossa espécie parece ser composta por monógamos que muitas vezes são puladores de cerca, formadores de triângulos amorosos ao estilo BBB?

Eu prometo que este texto não vai ficar mais pornográfico do que já está, mas antes disso gostaria que você desse uma olhada no esquema reproduzido abaixo. (É do genial livro The Third Chimpanzee (O Terceiro Chimpanzé), do biogeógrafo americano Jared Diamond.) Trata-se de uma comparação do tamanho relativo do corpo de machos e fêmeas, do pênis e dos testículos entre as quatro variantes de grandes macacos: chimpanzés, gorilas, orangotangos e nós. (O título, traduzido, quer dizer: “machos como as fêmeas os vêem”. O pênis é representado pela flecha do símbolo masculino, testículos por bolinhas e o tamanho relativo do corpo pela circunferência dos círculos).

Comparação entre tamanhos de pênis e testículos de machos primatas. Do alto, à esq., para baixo, à dir.: chimpanzé, homem, orangotango e gorila. Crédito: Reprodução
Comparação entre tamanhos de pênis e testículos de machos primatas. Do alto, à esq., para baixo, à dir.: chimpanzé, homem, orangotango e gorila. Crédito: Reprodução

Repare que o tamanho corporal comparado dos nossos machos e fêmeas é mais ou menos o mesmo: em média, os homens são só 8% mais altos e 20% mais pesados que as mulheres. De cara, isso já diz uma coisa importante sobre a nossa vida sexual “natural” (ou seja, em pequenos grupos igualitários de caçadores-coletores, condição de vida comum a toda a nossa espécie até 10 mil anos atrás): nós não fomos feitos para viver em haréns.

Os machos humanos simplesmente não têm muque para controlar, com as mãos nuas, um bando de fêmeas e disputar o controle delas com outros machos donos de haréns. Isso, no entanto, é comum entre gorilas e outras espécies de mamíferos em que os machos são desproporcionalmente maiores (elefantes-marinhos e outros membros do grupo das focas, por exemplo).

E, falando em gorilas, repare (por razões puramente científicas, claro) no tamanho diminuto do pênis e dos testículos do bicho. Se você tem as fêmeas sob seu controle absoluto, não se faz necessário produzir uma montanha de espermatozoides para competir com os dos rivais nem ter um pênis grande pela mesma razão.

A evolução parece ter tido um alvo bem diferente em vista quando forjou os testículos dos chimpanzés, desproporcionalmente grandes perto dos existentes entre humanos. Mas é exatamente o esperado numa espécie em que as fêmeas transam com muitos machos – isso no caso dos chimpanzés comuns. (Imagine o trabalho que dá para os testículos ter uma vida sexual de bonobo, como a que eu descrevi lá em cima. Ainda bem que cada cópula deles só dura 15 segundos…) Mesmo assim, as fêmeas de chimpanzé têm estro (o popular cio) definido, durante o qual sua vulva fica vermelha, deixando clara sua atratividade e fertilidade. Ou seja, é só nesses momentos que a promiscuidade geral vale mesmo.

Voltando ao nosso próprio caso: nossa biologia reprodutiva dá todas as pistas de uma espécie que não vive essa competição ferrenha de espermatozoides. Nossas fêmeas escondem o próprio período fértil – ou seja, a única chance de um homem garantir que um bebê é seu filho mesmo é passar o tempo todo com a mulher, monopolizando-a sexualmente. Nascemos para a monogamia, então?

Mais ou menos. Ao contrário dos gibões, formamos casais que vivem em meio a outros casais, e nossos machos são ligeiramente maiores que nossas fêmeas. Isso sempre deixa a porteira entreaberta para a infidelidade ou para triângulos, uma vez que outras opções reprodutivas são possíveis o tempo todo. Nesse jogo, machos e fêmeas podem adotar todo tipo de estratégia – desde o que, décadas atrás, pareceria uma inversão de papéis, com o lado feminino partindo para o ataque em vez de deixar isso para os homens (Fani?), até o velho golpe de se fazer de difícil (Íris?). Diante disso, o pobre Alemão parece não querer fechar nenhuma possibilidade.

Aos que talvez estejam chocados (ou empolgados, dependendo do caso) com essa aparente classificação da monogamia puladora de cerca como a condição “natural” do Homo sapiens, gostaria de fazer um apelo. A gente nunca deve cair na mais fácil das falácias, a chamada falácia naturalista. As nossas tendências comportamentais não são automaticamente boas e corretas só porque os nossos ancestrais que as adotaram foram os que venceram a concorrência milhões de anos atrás. Natural não é sinônimo de bom – o câncer é natural, assim como a maioria dos venenos.

Um passar rápido de olhos pela história do mundo mostra que a nossa “natureza”, ainda que nos arraste de forma poderosa às vezes, é só um aspecto de uma variedade ainda maior de comportamentos que podemos adotar.

Pode-se argumentar que a nossa história evolutiva impõe algumas tendências e pulsões, mas a complexidade da nossa mente e da nossa vida social também permitiu que emergisse a possibilidade de resistirmos a essas forças – de forjar, em suma, um universo ético que esteja acima da obsessão pelo sucesso reprodutivo presente entre as outras espécies. O pessoal vive dizendo em todo santo Big Brother que “isso aqui é um jogo”, mas a escolha sobre onde colocar as peças ainda é toda nossa.

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