O câncer: uma nova forma de vida?

Por Reinaldo José Lopes
Cão da Tanzânia afetado pelo tumor genital (Crédito: Divulgação)
Cão da Tanzânia afetado pelo tumor genital (Crédito: Divulgação)

Por si só, a doença conhecida como CTVT (sigla inglesa de tumor venéreo transmissível canino) não parece a coisa mais assustadora do mundo. Sim, é uma forma de câncer e afeta a genitália dos pobres bichos, mas com frequência regride espontaneamente e, mesmo quando não o faz, um tratamento relativamente simples com quimioterapia costuma derrotá-la. A questão, porém, é que aspectos de sua biologia são bem diferentes dos tumores de mama ou de próstata que aterrorizam humanos. De certa forma, o treco se comporta mais como um parasita semi-independente do que como uma doença.

Dados que apoiam essa ideia emergiram recentemente, quando o DNA de duas amostras de CTVT (uma obtida de um cão australiano, outra de um cão da cidade de Franca, no interior paulista, por um pesquisador da Unesp, Andrigo de Nardi) foi totalmente sequenciado, ou “soletrado” (escrevi a respeito recentemente nesta Folha). Queria aproveitar o blog pra me concentrar justamente nos aspectos surpreendentes, do tipo “vida, mas não como a conhecemos”, que essa pesquisa revelou sobre o CTVT.

O primeiro fator a se levar em conta, claro, é um dos “Ts” da sigla — o T de transmissível. Sabemos de vários tumores que são causados por microrganismos ou vírus, esses sim transmissíveis — o mais famoso talvez seja o do colo do útero, desencadeado por mutações deflagradas pela infecção por vírus HPV –, mas são raríssimos os casos de cânceres que são transplantados diretamente de um indivíduo doente para outro são na natureza. O outro exemplo notório é o dos tumores faciais que afetam o diabo-da-tasmânia, um marsupial da Austrália.

Enquanto, no caso do marsupial, as mordidas fazem a doença saltar de bicho em bicho — células cancerosas de um animal acabam se enfiando nos machucados na face do outro durante uma briga –, o CTVT é transmitido pelo contato sexual. No inevitável esfrega-esfrega que a prática implica, as células tumorais do animal doente entram em contato com a mucosa do bicho são e lá acabam se multiplicando. Como cães frequentemente cheiram e lambem a genitália dos companheiros de espécie, também acontece de a doença ir parar na boca ou nos olhos dos coitados.

RG genético

O que a análise do genoma dos tumores acrescenta a esses dados? Pra começar, o fato de que o CTVT tem uma identidade genética muito particular, bem diferente do que se vê em outros cânceres. É comum, por exemplo, que tumores sejam formados por um mosaico de células, com mutações (alterações no DNA) diferentes no genoma de cada uma. Esses “subclones”, como são chamados, são indícios de como o câncer vai se alterando geneticamente, com mutações que ajudam subgrupos de suas células a sobreviver aos ataques do sistema de defesa do organismo e se multiplicar cada vez mais.

Isso parece não acontecer com o CTVT: as células do tumor possuem um perfil genético bem mais homogêneo — sinal de que, segundo os pesquisadores, elas estariam já muito bem adaptadas ao seu “ambiente” (o organismo dos cães hospedeiros).

A coisa fica ainda mais impressionante quando se leva em conta a enorme quantidade de mutações próprias — quase 2 milhões de trocas de “letras” únicas de DNA, sem falar em alterações maiores — que as células dos dois tumores, de origens geográficas totalmente diferentes (Brasil e Austrália, lembrando), compartilham entre si. Ao que tudo indica, cada caso desse câncer tem pouquíssima contribuição genética dos bichos que atormenta. Pelo contrário, os tumores mantêm uma identidade própria ao longo do tempo, saltando de cachorro para cachorro.

Quanto tempo? Esse é um dos dados mais impressionantes da pesquisa. Tudo bem, é preciso levar em conta que as estimativas de idade de uma linhagem genética, feitas com base em mutações acumuladas ao longo do tempo (cada mutação é um tique ou taque do relógio, digamos), são complexas e cheias de margens de erro. Mas, mesmo assim, a idade de 11 mil anos para o surgimento do tumor vale ao menos como uma baliza (sabemos, com certeza, que o tumor é no mínimo secular, já que sua existência foi relatada na literatura médica no começo do século 19). É tempo pra burro. Uma evidência circunstancial em favor da antiguidade do flagelo é o fato de que o perfil genético do tumor (o que sobrou depois daquele monte de mutações, ao menos) bate com o de um cachorro de grande porte com características de raças mais antigas, como os malamutes e huskies siberianos. A idade de 11 mil anos faz sentido, resumindo.

"Árvore genealógica" do tumor canino, marcado em vermelho: parente próximo dos huskies (Crédito: Reprodução)
“Árvore genealógica” do tumor canino, marcado em vermelho: parente próximo dos huskies (Crédito: Reprodução)

É vida ou não é vida?

Voltando ao nosso ponto inicial, o interessante é que o CTVT coloca em relevo alguns dos critérios básicos que a biologia evolucionista usa para entender e classificar as formas de vida. O fato de funcionar como um parasita não apaga o detalhe de que esse treco tem mantido uma identidade genética própria, e distinta da de seus hospedeiros, por milhares de anos. Apesar da origem pontual no tempo, a partir de um cão que foi o primeiro coitado a desenvolver o problema, esse câncer se descolou totalmente de sua gênese canina para virar… bem, outra coisa que a nossa linguagem tem dificuldade para classificar.

O ponto mais importante, no entanto, vem do centro da teoria da evolução moderna: a seleção natural. Em certa medida, isso se dá com todo tipo de câncer. Tumores, afinal, não passam de células que conseguem se multiplicar e deixar descendentes com mais velocidade do que as dos tecidos do organismo ao seu redor — daí eles serem tão problemáticos pro resto do corpo, claro. Isso é a seleção natural em ação: sucesso reprodutivo diferencial (ou seja, algumas células se reproduzindo com mais sucesso que outras).

Repare como a lógica se aplica à perfeição ao CTVT, com um adendo importante: a capacidade de se “descolar” do corpo do hospedeiro original. Cá entre nós, pra usar outra sigla, acho que isso é um CQD, gente bonita: estamos falando de uma nova forma de vida.

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