Pergunte ao pó

Por Reinaldo José Lopes

Odeio ser repetitivo, mas senti que era interessante e necessário voltar a um ponto mencionado de passagem na minha reportagem recente sobre o mais antigo genoma de um nativo das Américas (12 mil anos, um bebê membro da cultura Clovis, dos atuais Estados Unidos). O que me chamou a atenção — na verdade, pareceu uma situação praticamente inédita — foi o fato de que os cientistas concordaram, depois da análise de DNA e de várias décadas desde que o esqueleto do bebê foi desenterrado, em 1968, que era hora de sepultar o que restou da criança de novo, no mesmo local onde os ossos foram achados.

A decisão foi tomada depois de uma consulta às lideranças indígenas do Estado americano de Montana, onde os restos do bebê estavam enterrados, no sítio arqueológico de Anzick — a pesquisa na revista científica “Nature” tem, inclusive, um coautor indígena, Shane Doyle, da tribo crow.

Só essa consulta prévia já pode ser considerada um grande avanço diante do histórico lamentável dos estudos de antropologia biológica, em especial quando a disciplina estava começando. No século 19 e começo do século 20, é triste admitir, cientistas não tinham muita dor na consciência em colocar cadáveres de indígenas como peças de museu. No caso dos aborígines da ilha australiana da Tasmânia, teve gente simplesmente fazendo bolsas para carregar tabaco com a pele — para eles, desconfio que era “couro”, infelizmente — dos nativos. (Mais detalhes sobre isso no imperdível livro “O Terceiro Chimpanzé”, de Jared Diamond.)

A questão do bebê de Montana é um tantinho mais complicada. Com 12 mil anos de idade, ele não tem conexão cultural nenhuma com as tribos que ainda vivem em reservas indígenas dos EUA. Não é propriamente correta a afirmação de Doyle de que o bebê prova que “nós sempre estivemos aqui” se isso for entendido como uma continuidade perfeita entre os pioneiros do fim da Era do Gelo e os índios atuais. Ninguém jamais saberá o nome do menino, ou o de seus pais. A decisão de enterrá-lo mais uma vez efetivamente impede a chamada replicabilidade, ou seja, a possibilidade de outros cientistas obterem novos dados, genéticos ou antropológicos, estudando o que restou dele.

Por outro lado, foram os próprios dados genéticos que confirmaram a conexão do garoto com todos os indígenas das Américas — inclusive, muito provavelmente, com os atuais grupos nativos dos Estados Unidos. Apesar do abismo cultural, faz algum sentido os índios crow e outros pensarem nele como um de seus ancestrais (embora a própria criança não tenha vivido suficientemente para deixar descendentes).

Nesse ponto, e considerando que o sítio arqueológico da área já foi bem estudado, acho que vale a pena respeitar a conexão espiritual profunda que os povos da área sentem com seus ancestrais — mesmo que, do ponto de vista científico, seja possível demonstrar que esse elo é um tanto tênue. Não é preciso compartilhar das crenças dos outros para respeitá-las, na medida do razoável. No limite, trata-se de um ato de compaixão – e é importante que a ciência, indo além de sua ética de abertura e honestidade intelectual, também incorpore algo de compassivo.

Outro detalhe: não acho que seja preciso acreditar na existência de algo sobrenatural associado ao organismo humano pra atribuir algum grau de sacralidade, de aura de respeito especial, àquilo que um dia foi uma pessoa. Às vezes, tenho a sensação de que só algum senso de sacralidade é capaz de nos impelir a respeitar de verdade os nossos semelhantes. Nesse ponto, a iniciativa me parece um exemplo importante.

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