Por que não bato em criacionistas

Por Reinaldo José Lopes

Alguns dias atrás, um leitor me disse, por e-mail, que eu deveria bater mais nos criacionistas – em suma, ser mais incisivo e combativo ao demonstrar o absurdo da crença de que Deus criou o homem e todos os demais seres vivos por intervenção direta e milagrosa, com a forma que nós e as demais espécies temos hoje, há poucos milhares de anos (basicamente a visão trazida por uma literatura literal do livro do Gênesis, o primeiro da Bíblia). Estou aqui para explicar por que não gosto de bater em criacionistas – ainda que só com palavras (Deus me livre de fazê-lo com os punhos!) – e continuarei a pegar leve aqui no blog.

Primeiro, só para deixar tudo abundantemente claro, é óbvio que o criacionismo não faz o menor sentido do ponto de vista científico. É óbvio também que a teoria da evolução tem um poder explicativo tremendo e é, disparado, a melhor ferramenta que temos para explicar a diversidade da vida no nosso planeta e as fenomenais adaptações em todas as escalas biológicas, do flagelo das bactérias à tromba dos elefantes. E, só para terminar a lista de óbvios, é óbvio ainda que a sátira, a ironia e o humor ferino são excelentes armas para mostrar que o rei está nu e revelar o ridículo de ideias como o criacionismo e sua vertente “light”, o design inteligente.

Mas, e é aqui que a suína torce a cauda, ao menos no meu caso, não quero usar essas armas. É a minha Convenção de Genebra pessoal, digamos. E pode ser que elas causem mais mal do que bem, por vezes.

Tentando me explicar um pouco melhor: boa parte da argumentação anticriacionismo que existe por aí, por mais clara, bem escrita e divertida que seja, frequentemente parte do princípio de que o “outro lado” é:

a)burro/ignorante;

b)desonesto;

c)lunático;

d)todas as anteriores;

Para ser totalmente sincero, é preciso admitir que as alternativas acima como motivações para a defesa do criacionismo são possibilidades reais. O problema que eu vejo, no entanto, é que é muito difícil, se não impossível, ter uma conversa decente com alguém quando você tem esses pressupostos na cabeça. Quando você tem esses pontos de partida, ao menos como opções conscientes (lidar com preconceitos inconscientes é mais difícil), a coisa deixa de ser debate e vira guerra, pura e simples.

E a questão, creio eu, é que as motivações das pessoas que não aceitam a teoria da evolução podem ser mais complicadas. Voltando ao modelo de alternativas de prova de múltipla escolha ali de cima, o que você faz quando:

e)a pessoa legitimamente acredita que tem argumentos fortes do seu lado, mesmo quando não os tem;

f)os valores que para ela são os mais sagrados exigem que ela tome posição de um dos lados da questão, mesmo quando os fatos parecem estar contra essa posição?

Aí a coisa fica complicadíssima. No fundo, não sei se existe diálogo possível no caso dessas últimas alternativas. Mas me sinto razoavelmente seguro para afirmar que, nesses casos, não vai ser com sátira ou com raiva que as coisas vão avançar.

Principalmente no caso de quem associa a crença criacionista a seus valores mais sagrados, o único caminho que eu vejo é tentar mostrar que as pessoas não precisam escolher. Isso porque, se a associação entre teoria da evolução e ateísmo continuar a ser retratada como um nexo lógico e inevitável, as pessoas vão continuar escolhendo fechar os olhos para o universo complexo e maravilhoso que a biologia evolutiva revela. Eu, pelo menos, sei o que escolheria.

E tem outro problema: acho muito difícil ridicularizar tudo o que uma pessoa acredita e ainda assim continuar a respeitá-la. A psicologia humana tende a igualar as duas coisas. E então, de novo, qualquer possibilidade de diálogo escorre pelo ralo.

Finalmente, os defensores da evolução sempre fazem, com razão, aliás, a crítica de que os criacionistas usam o doutrinamento e a coação — no passado, usaram a coação física e até o assassinato — para manter a capacidade crítica das pessoas sob controle. Bem, esta é a nossa chance de sermos melhores do que isso não apenas nos fatos e nos argumentos, mas nas atitudes. Se a ideia é renunciar à violência, talvez seja o caso de renunciar até à violência simbólica e verbal. Que tal agir de modo mais cristão do que quem se diz cristão?

É por isso é que vou continuar expondo os fatos e a lógica por trás da teoria da evolução, com paixão, com cuidado e sim, com humor — mas tentando rir COM as pessoas, e não DELAS. Não estou dizendo que seja o único ou o melhor jeito de fazer as coisas. Mas é o que escolho fazer.

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