Francisco, o poder e a glória

Por Reinaldo José Lopes
Edgar Jiménez/Creative Commons
Papa Francisco: nos braços do povo — ao menos nesse primeiro ano

O argentino Jorge Bergoglio virou papa Francisco faz um ano, e eu fiz um pequeno balanço desses 12 meses movimentados e interessantes na edição de hoje desta Folha (leia textos a respeito aqui e aqui). Como de costume, contei com a ajuda de especialistas em Igreja Católica para tentar interpretar o pontificado de Francisco até agora e, também como de costume, tive de me contentar em usar resumos ultratelegráficos das coisas muito legais que eles me disseram para a reportagem do jornal impresso. Portanto, aproveito este espaço para colocar as declarações deles na íntegra.

Primeiro, confiram o que me disse Moisés Sbardelotto (Currículo Lattes do pesquisador aqui), da Unisinos, no Rio Grande do Sul.

ESTILO OU SUBSTÂNCIA?

“Dizer que a mudança [trazida por Francisco] é de estilo já é reconhecer que houve uma mudança de substância, porque a ‘substância’ do papado (sua autoridade magisterial) sempre foi marcada por um estilo historicamente bem marcado pelos sinais de poder e de superioridade. O que Francisco fez foi mostrar que o autêntico poder do papado é o serviço. O papa pode até ser um ‘primus’ [primeiro, em latim], mas é um “primus inter pares” [primeiro entre iguais] e preside as Igrejas cristãs ‘na caridade’, como ‘bispo de Roma’. Ele deixou isso claro desde o início. E foi uma verdadeira revolução! Como pensar um ‘papa servidor’? Seria quase uma contradição em termos. Como um papa sem sinais externos de poder pode ter sua autoridade reconhecida pelo mundo?

Pois bem, o Papa Francisco mostrou exatamente isso ao longo desse primeiro ano, seria desnecessário repassar todos os gestos nesse sentido. Outro sinal claríssimo é a busca de colegialidade e de sinodalidade. O papa detêm o ‘poder supremo’ sobre a Igreja, mas Francisco compartilha esse poder com o inovador Conselho dos oito cardeais, buscando as contribuições do Sínodo, ou seja, dos bispos do mundo inteiro, que trarão para debate as contribuições da Igreja inteira, a partir do questionário disponibilizado publicamente para todo o povo cristão, com 38 perguntas específicas, diretas, abrangentes sobre pontos-chave do debate eclesial hoje, inclusive a questão dos divorciados e das uniões gays.

Trata-se de um papa que reconhece que o rumo da ‘barca de Pedro’ é compartilhado. Ele pode deter o leme, mas são necessários vários remadores diante dos fortes ventos de mudança da sociedade hoje. Incluindo as mulheres em posições de poder. Como dizer que isso é apenas mudança de estilo? É puro estilo (de poder), novo e inovador, e pura substância (de doutrina), renovada por ser sempre a mesma. Um verdadeiro reconhecimento da Ecclesia semper reformanda [a Igreja que está sempre se reformando]. Francisco é apenas um catalisador – em alta concentração.”

ANO PROGRAMÁTICO

Segundamente, as amplas reflexões de Rodrigo Coppe Caldeira (currículo do pesquisador acá), da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais.

“Esse ano de Francisco pode ser interpretado como o ano programático de seu pontificado. Mostrou a que veio. Mas também agiu. Primeiramente, a escolha do nome já trazia uma profunda mensagem daquilo que marcaria seu reinado: a atenção aos pobres e necessitados. Seus atos simbólicos nos impactaram desde a sua primeira imagem no balcão da basílica de São Pedro. Francisco toca, deixa ser tocado, interage com o fiéis, é próximo e solícito. Em segundo lugar, sua rápida e decidida movimentação em torno das questões que envolviam os desvios do Banco do Vaticano. Bastante importante sua atuação a fim de conter os abusos. Também no que tange aos problemas com os ‘padres pedófilos’ Francisco foi marcante. Tirou padres e bispos de seus postos. Aspectos que tocam a disciplina.

Em seguida podemos lembrar de seus movimentos ad intra, isto é, voltados para as questões internas da Igreja em sentido doutrinário e pastoral. No que tange ao primeiro aspecto, não há mudança. Já no segundo, a questão pastoral, Francisco é marcante. A mudança de tom é impactante. Se os dois papas anteriores estiveram presentes no Concílio Vaticano II – o primeiro como bispo e o segundo como teólogo perito –, Francisco não esteve lá, mas encarna drasticamente seu tom, assinalado pela mão estendida à humanidade toda e ao convite aos ‘homens de boa vontade’ na busca de um mundo mais fraterno e humano. Diálogo, eis a palavra. O tom que lembra João XXIII, o papa que convocou o concílio e dizia que a Igreja deveria usar o ‘remédio da misericórdia’ nos tempos que se abriam e consolidavam.

Momento importante também é o da formação e concretização do G8, o grupo dos oito cardeais de partes diferentes do mundo que assessoram o papa na administração e na busca de realizar as reformas, tão aclamadas, mas sempre bastante difíceis e complexas para uma estrutura como a Igreja católica romana. O momento máximo do pontificado, ao meu ver, foi a promulgação da Exortação apostólica Evangelii gaudium. Nesse texto, Francisco clareia as afirmações que fez em entrevistas – aquela a Spadaro, da ‘Civiltà Cattolica’, e a Scalfari do ‘La Repubblica’ –, que causaram grande impacto na opinião pública internacional e muitos debates sobre o que o papa queria dizer com muitas daquelas palavras.

Temas como o aborto, o casamento de pessoas do mesmo sexo, apareceram em suas palavras, mas nada que poderia levar a conclusão de que a Igreja mudava sua compreensão sobre esses temas. Certamente muda o tom, como dito anteriormente, sem o choque aberto e constante com aqueles que defendem uma ‘agenda liberal de costumes’, como aparecia nos dois papados anteriores. A convocação de um Sínodo Extraordinário sobre a Família em outubro de 2014 também pode ser lembrado como um ponto alto desse primeiro ano. A família como instituição passa por momentos desafiadores nesse início de século, o que levou Francisco a pensar nesse Sínodo, para que os bispos discutam temas relacionados a ela, como por exemplo, a questão dos católicos divorciados. O que anda causando muitas divisões entre aqueles que participarão do evento.

A busca por uma Igreja mais colegial é marca desse primeiro ano, o que pode ser notado quando o papa busca ouvir as posições das Igrejas particulares sobre os temas que devem ser tratados no Sínodo. O que também me chamou atenção foi o papa marcar a canonização de outros dois papas – João XXIII e João Paulo II – para o mesmo momento no segundo semestre de 2014. No campo das análises há muitas divergências sobre o papel desses dois papas. O que me parece é que Francisco, realizando as canonizações no mesmo momento, dá um sinal claro de que a Igreja caminha numa continuidade – esse conceito ingrato e utilizado pelos neo-integristas para legitimar suas posições anti-conciliares! –, de que a “Igreja de João Paulo II” e “Igreja de João XXIII” são a mesma e única. Isto é, a compreensão bastante enviesada e ideológica de papados contrapostos, como se o segundo negasse o primeiro, fica questionada com a aproximação de ambos. Esperemos o discurso desse momento para verificar se a hipótese tem algum cabimento.

Não podemos esquecer também nesse primeiro ano a presença do papa emérito Bento XVI. Muitas das especulações sobre ele no Vaticano, que tipo de papel teria, foram por água abaixo e o que me chamou mais atenção foi a sua presença no consistório último. Um consistório com dois papas. Momento histórico.

O que é interessante notar também é como os grupos no interior do catolicismo reagiram à eleição de Francisco. Enquanto os neo-integristas esperneiam contra os discursos e posicionamentos de Francisco, particularmente pelo seu tom conciliatório com o mundo moderno e seus valores e também por certa negativa do papa em torno de alguns de seus posicionamentos mais conservadores, no outro extremo, os progressistas, cerram-no em suas chaves analíticas que querem ver Francisco como a “revolução na Igreja”, como o “papa da ruptura”.

Os primeiros se equivocam em pensar uma Igreja estática, partindo de um conceito bastante raso de ‘Tradição’, enquanto os segundos são assinalados pelo fetiche da revolução. É preciso pensar onde Francisco se insere na trajetória bimilenar da ideia de ‘reforma da Igreja’. Esse conceito é fundamental para se compreender a que veio Bergoglio e seus movimentos, atentando, particularmente para os aspectos espirituais e místicos aí envolvidos, o que não acontece em várias análises, que só conseguem ver ‘jogos de poder’ e luta pela manutenção e busca de fiéis.”