O Cosmos de Giordano Bruno

Por Reinaldo José Lopes

Graças à magia negra da gravação de programas da TV a cabo, consegui assistir hoje (e só hoje, chuif) o primeiro episódio da nova versão da série “Cosmos”, apresentada pelo astrofísico americano Neil de Grasse Tyson. Tá feia a coisa em termos de tempo por aqui. Curti um bocado e estou programando o gravador pros próximos episódios, mas não dá para deixar de comentar, dentro da temática do blog, a maneira como o monge dominicano e filósofo italiano Giordano Bruno (1548-1600) e sua morte nas mãos da Inquisição foi retratada na estreia da série, seguindo na esteira de meu colega Marcio Campos, do blog “Tubo de Ensaio”. A questão é que o consenso entre os historiadores é que Bruno acabou sendo vitimado muito mais por motivos religiosos do que científicos. Em outras palavras, é justo considerá-lo um mártir da liberdade de pensamento e de consciência, mas não exatamente da liberdade da ciência.

Giordano Bruno lê livro proibido em seu monastério (Crédito: Reprodução)
Giordano Bruno lê livro proibido em seu monastério (Crédito: Reprodução)

Antes de detalhar um pouco mais isso, é preciso tirar algumas coisas polêmicas da frente. É lógico que, por mais que a Igreja Católica achasse que Bruno estava “errado” teologicamente, entregá-lo para ser executado pelas autoridades foi a coisa mais anticristã que poderia ter sido feita. Quem foi perseguido por suas crenças, como os cristãos na época romana, deveria estabelecer como primeira regra jamais perseguir outros por suas crenças. Isso é ponto passivo. Mas também vale a pena tentar entender melhor a figura, e até que ponto o retrato que traçaram dele em “Cosmos” está correto.

A primeira coisa que me chamou a atenção no episódio é a seguinte: a insistência do Bruno versão desenho animado de que sua visão de um Universo infinito era um correlato natural do poder e da majestade infinitos de Deus. Dá a entender que, no fundo, do ponto de vista religioso, não havia diferença substancial entre o monge renegado e seus perseguidores.

Beleza, certamente podemos descrever Giordano Bruno como um sujeito profundamente religioso, mas o que essa descrição omite é que ele tinha uma visão basicamente panteísta de seu Cosmos. Ou seja, para Bruno Deus e o Universo eram basicamente a mesma coisa; o próprio tecido da realidade estava “embebido” de divindade e infinitude. É uma visão totalmente diferente da crença judaico-cristã num Deus transcendente, ou seja, radicalmente separado de sua Criação. Esse foi um primeiro motivo importante para colocar o pobre sujeito em conflito com as autoridades católicas.

A série “Cosmos” também acerta, na hora de encenar a condenação de Bruno, ao citar as acusações religiosas contra ele, como a de negar a existência da Santíssima Trindade ou a concepção virginal de Maria. Consta que ele também dizia que Jesus não teria passado de um mago extremamente habilidoso, além de também alegar possuir certos poderes mágicos (coisa que era relativamente comum na Renascença; muitos intelectuais se interessavam por magia).

Mesmo do ponto de vista científico, tudo indica que o interesse de Bruno pela ideia de que a Terra girava em torno do Sol, ou pelo conceito de um mundo repleto de infinitos sóis, planetas e seres inteligentes, tinha menos a ver com os dados astronômicos (tema a respeito do qual ele não era um grande especialista) e mais com sua paixão filosófica e teológica por um Deus infinito “embebido” no Universo.

Giordano Bruno ascende a seu Cosmos infinito após ser executado (Crédito: Reprodução)
Giordano Bruno ascende a seu Cosmos infinito após ser executado (Crédito: Reprodução)

Finalmente, os relatos que chegaram até nós dão conta de que frei Bruno era meio que… um escroto. Ou ao menos bastante briguento e arrogante, arrumando intrigas políticas por onde quer que passasse, na França, na Suíça, na Inglaterra e, claro, na própria Itália, onde acabaria sendo martirizado.

É claro que nada disso nem de longe torna o coitado merecedor do destino que teve. Sua coragem diante da condenação foi exemplar. Mas nem por isso o transforma no grande mártir de uma revolução científica que ainda estava engatinhando e que, a rigor, ele nem chegou a compreender direito.

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