Dez coisas que você não sabia sobre Noé

Por Reinaldo José Lopes
Noé versão Russell Crowe: macho até debaixo d´água. (Crédito: Divulgação)
Noé versão Russell Crowe: macho até debaixo d’água. (Crédito: Divulgação)

Depois de um longo hiato, as superproduções bíblicas hollywoodianas voltam às telas com a estreia de “Noé”, dirigido por Darren Aronofsky, com o “gladiador” Russel Crowe no papel-título e até com participação especial de Hermione, digo, de Emma Watson como a esposa de Sem, o filho mais velho do construtor da arca. Na Folha de hoje, fiz uma breve análise da maneira como o filme transformou suas fontes bíblicas para tentar criar uma narrativa com mais plausibilidade psicológica (se conseguiu esse objetivo aí já é outra história…). De qualquer maneira, como a Arca é um dos temas mais populares nas discussões sobre ciência e religião, resolvi ampliar um bocado o debate com uma lista de dez coisas que você, gentil leitor, possivelmente não sabia sobre Noé. Ei-la.

1)Criacionistas usam a narrativa do Dilúvio para explicar a existência de camadas de fósseis no planeta

Segundo os criacionistas que acreditam que a narrativa do livro do Gênesis descreve com absoluta fidelidade histórica o desenvolvimento do nosso planeta, os animais extintos que conhecemos por meio de fósseis, como os dinossauros, são espécies que foram soterradas rapidamente pela lama do Dilúvio, tendo sido preservadas como prova da ação divina.

Valeu a tentativa, pessoal, mas essa explicação não faz sentido nem do ponto de vista científico, nem do ponto de vista bíblico. Para começar, as ordens de Deus a Noé no texto da Bíblia são claras: é para salvar TODAS as espécies de animais, sem essa de esquecer os dinossauros (ou deixá-los de lado porque não cabiam na Arca).

Em segundo lugar, atribuir todas as camadas de fósseis do planeta, ou mesmo várias delas, ao Dilúvio, simplesmente não casa com a maneira com as características geológicas das rochas onde os fósseis são encontrados hoje. Elas variam em composição química, tipo de sedimento (alguns de origem marinha, outros de natureza fluvial, outros ainda alterados pelo vento) – e, claro, idade, em alguns casos de vários bilhões de anos.

2)O conhecimento da época sobre a diversidade de espécies animais era muito mais limitado

Ainda falando sobre essa relação entre os bichos da Arca e a biodiversidade do mundo real, é interessante notar que os criacionistas também costumam dizer que Noé não colocou todas as espécies de animais existentes hoje na Arca. Teria apenas trazido ancestrais deles (talvez no nível de gênero, ou no máximo de família; nesse último caso, um casal de canídeos ancestral de todos os cães, raposas e lobos de hoje, por exemplo) e, mais tarde, eles teriam se diversificado mundo afora.

Essa visão tem razão numa coisa: realmente seria impossível enfiar centenas de milhares de espécies de animais numa única Arca. A questão, porém, é que o termo hebraico usado para designar cada tipo de bicho na narrativa é, infelizmente para os criacionistas, a palavra normalmente usada para espécies separadas, e não para grupos abrangentes de animais (um conceito, aliás, que é muito genérico e difuso em hebraico bíblico). Realmente não rola.

Hermione, você por aqui? (Crédito: Divulgação)
Hermione, você por aqui? (Crédito: Divulgação)

E, é claro, a gente esbarra na questão do tempo. As pessoas falam em diversificação de gêneros e famílias de animais, inclusive de vertebrados, como se fosse coisa que dá para acontecer de uma hora para a outra. Todas as indicações científicas que temos sobre esse fenômeno, no entanto, sugerem fortemente que se trata de algo que demora milhões de anos para acontecer.

3)Noé é um “recém-chegado” à história do Dilúvio

Não só porque inúmeras culturas mundo afora possuem histórias semelhantes a respeito de uma destruição da humanidade pela força das águas, mas principalmente porque logo ali, no Oriente Médio, ao lado dos antigos israelitas que nos legaram a história bíblica do Dilúvio, versões a respeito da tragédia aquática já circulavam por escrito quase 2.000 anos antes de Cristo, na antiga Mesopotâmia (atual Iraque). Por outro lado, ao que tudo indica, a versão bíblica da saga só ganhou a forma que conhecemos hoje por volta do ano 550 a.C. (Não, não foi Moisés que a escreveu, diferentemente da atribuição tradicional de autoria da narrativa, mas isso é conversa para outro post.)

Os paralelos entre as histórias israelita e mesopotâmica (na qual o herói não é Noé, sendo conhecido por nomes como Athrahasis, Ziusudra ou Utnapishti) são muitos, desde a ordem para construir um barco, a ideia de reunir neles casais das várias espécies de animais e até o sacrifício feito a Deus (bem, no caso mesopotâmico, aos deuses) pelo construtor do barco depois que ele termina a jornada são e salvo, assim como a promessa divina de que um novo dilúvio não ocorreria.

4)Nas histórias mais antigas, o motivo para destruir a humanidade era muito pior

Continuando o item anterior, o grande contraste entre a narrativa do Gênesis e a dos antigos mitos da Mesopotâmia é a motivação divina para resolver afogar a humanidade inteira. Na Bíblia, o motivo da condenação é uma palavra hebraica que significa “violência, derramamento de sangue” – a humanidade ficou basicamente dominada por assassinos cruéis, levando Deus à decisão de destruí-la. Já nas versões em acadiano e sumério (antigos idiomas da região), os deuses decidem matar todo mundo por causa do… barulho. A humanidade tinha ficado muito barulhenta e bagunceira e, com isso, os deuses não conseguiam mais dormir. Isso é o que eu chamo de aplicação draconiana da Lei do Silêncio. Da próxima vez que seu vizinho ficar escutando pancadão a todo volume às 23h, informe-o discretamente de que você é devoto de Ishtar e Marduk. Vale também presenteá-lo com uma cópia da Epopeia de Gilgamesh (uma das versões mesopotâmicas do mito). Quem sabe ele abaixa o volume.

"Tudo que se arrasta pela terra" também tem lugar na Arca. (Crédito: Divulgação)
“Tudo que se arrasta pela terra” também tem lugar na Arca. (Crédito: Divulgação)

5)Mas, mesmo na Bíblia, Deus não acabou matando um monte de gente inocente com essa ideia?

Do nosso ponto de vista, sim, é claro. É questão é que a maior parte do Antigo Testamento (não toda essa porção da Bíblia, mas a parte dominante) foi escrita a partir da perspectiva cultural da responsabilidade “socialmente compartilhada” do mal. Isso significa que, para muitos autores bíblicos, sociedades em que o mal tinha rédeas livres para pintar e bordar eram coletivamente responsáveis por ele, já que não coibiam quem estava praticando essas más ações. Da mesma maneira, o que contava não era propriamente o indivíduo isolado, mas sua linhagem familiar. Isso valia dos dois lados: tanto filhos podiam ser punidos pelos pecados dos pais, de acordo com sua mentalidade, como esses mesmos filhos, ainda que indignos, podiam ser recompensados por Deus pelas boas ações praticadas por seus pais.

6)A história que temos no Gênesis é a fusão de duas narrativas antes independentes

É o que afirmam os principais estudiosos do texto bíblico, que usam a linguagem e a estrutura literária dos parágrafos para postular duas fontes nessa parte da Bíblia: a chamada fonte J (ou javista) e a fonte P (ou sacerdotal). Entre outras diferenças, a fonte J designa o Criador de “Senhor Deus” (“Yahweh Elohim”, em hebraico), enquanto P usa apenas o termo “Elohim”, ou simplesmente “Deus”.

7)Aliás, isso parece estar por trás de uma aparente confusão matemática no texto

Sim, porque primeiro Deus (Elohim) ordena que Noé um casal de cada espécie de animal, enquanto o Senhor Deus (Yahweh Elohim) diz que o construtor da Arca precisa arrebanhar sete casais de cada um dos animais puros e um casal dos animais impuros (uma distinção ritual que, aliás, só aparece séculos mais tarde na narrativa bíblica, quando Deus transmite sua Lei a Moisés).

Isso explica porque, afinal de contas, Noé pôde sacrificar animais ao Senhor Deus no final de sua jornada. Do contrário, ele teria levado à extinção de uma das espécies que tentara salvar!

ATENÇÃO, SPOILERS DO FILME!

8)Matusalém realmente morreu na época do Dilúvio

Bem, ninguém diga que eu não avisei. A questão é que o avô de Noé, Matusalém, proverbialmente conhecido como o ser humano mais idoso de todos os tempos, teria morrido, segundo a cronologia bíblica, no ano do Dilúvio, depois de viver 969 longos anos. No filme, essa coincidência é usada para transformar o velhinho em mentor espiritual de Noé e mostrá-lo morrendo voluntariamente quando o Dilúvio desaba.

Tubal-Caim: mau que nem pica-pau. (Crédito: Divulgação)
Tubal-Caim: mau que nem pica-pau. (Crédito: Divulgação)

9)O diretor tentou seguir uma antiga tradição judaica de interpretação bíblica

O diretor do filme declarou que seu objetivo foi seguir a linha da “midrash”, que é uma espécie de interpretação narrativa dos textos da Bíblia feita pelos antigos rabinos. Como os textos bíblicos raramente são ricos em detalhes, fica muito difícil entender a motivação dos personagens ou a vida interior deles. Os “midrashim” (plural de “midrash”) suprem essa necessidade criando esses detalhes que preenchem a narrativa bíblica sem contradizê-la diretamente.

10)Vilão do filme já tinha má fama em antigas tradições

O rei Tubal-Caim, que aparece em “Noé” como arqui-inimigo do protagonista, é descrito simplesmente na Bíblia como o primeiro a descobrir como produzir instrumentos de metal. Tradições judaicas posteriores, no entanto, já associavam isso ao uso de armas de metal na guerra, levando à ideia de transformar o personagem num vilão guerreiro.

——

Quer saber quem sou? Confira meu currículo Lattes

Siga-me no Twitter ou no Facebook

Conheça “Além de Darwin”, meu primeiro livro de divulgação científica