Desculpaí, mas Jesus existiu: critérios

Por Reinaldo José Lopes

Aviso aos navegantes: este post é o quarto de uma série sobre a historicidade de Jesus. Para ler os anteriores, por favor clique nos links abaixo.

Desculpaí, mas Jesus existiu: um preâmbulo

Desculpaí, mas Jesus existiu: Flávio Josefo

Desculpaí, mas Jesus existiu: fontes pagãs

Antes de avaliarmos as fontes cristãs do século 1º d.C. sobre Jesus, vale a pena fazer uma exposição brevíssima dos critérios de historicidade que hoje são consensuais entre os historiadores para examinar os documentos antigos a respeito do Nazareno. Esses critérios são usados não apenas para determinar a historicidade básica da figura, claro — se ele simplesmente existiu ou não –, mas também pra tentar distinguir o que provavelmente aconteceu com ele de coisas que parecem ser elaborações literárias e teológicas posteriores.

Sem mais delongas, portanto, vamos aos critérios. De novo, meu principal guia aqui é o americano John P. Meier, autor da monumental série de livros “Um Judeu Marginal”.

1)O critério do constrangimento

O conceito por trás desse critério é absurdamente simples de explicar, mas aplicá-lo é um pouco mais complicado. O critério do constrangimento parte do pressuposto de que, por mais que os antigos cristãos acreditassem em coisas que, para céticos modernos, soam completamente absurdas, como profetas crucificados que voltam à vida, ainda assim eles tinham uma boa noção do que pegava mal e do que pegava bem na sociedade de seu tempo. Em outras palavras: dados sobre a vida e a morte de Jesus que poderiam colocar tanto o Nazareno quanto os seus seguidores numa posição constrangedora, vergonhosa ou embaraçosa e ainda assim eram mantidos nas narrativas dos Evangelhos ou em outra literatura cristã têm uma chance elevada de serem históricos. Esses dados seriam parte tão forte da tradição histórica a respeito do sujeito que seria impossível escamoteá-los.

É claro que o fato número 1 corroborado por esse critério é a crucificação. Seria uma estupidez considerável inventar do zero um Salvador do Mundo que, por acaso, acabou morrendo por meio do suplício mais humilhante do mundo antigo, reservado para escravos rebeldes e outras “não pessoas”.

Deve-se ressaltar que é importante levar em conta o que seria constrangedor no contexto cultural da época. Exemplo: a gente poderia pensar que o “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste” pronunciado por Jesus na cruz é corroborado por esse critério. Como assim Deus Filho perdeu a fé em Deus Pai? Mas, dentro da tradição judaica do justo que cobra explicações de Deus, uma tradição que aparece nos Salmos, isso não é tão constrangedor.

2)O critério da descontinuidade

Tal critério consiste em examinar coisas que são descontínuas, ou seja, que aparecem nos relatos sobre Jesus mas não são típicas nem do judaísmo de seu tempo nem das primeiras comunidades cristãs. Não faria sentido um evangelista ou apóstolo inventar esse tipo de coisa se seu próprio grupo não pratica o que Jesus fazia ou pregava. Exemplo: o hábito do Nazareno, relatado em diversos textos, de beber e comer à vontade, e ainda por cima em companhia de gente como cobradores de impostos e prostitutas. Tanto judeus, antes de Jesus, como cristãos, depois dele, valorizavam o jejum religioso. (Aliás, esse fato também se encaixa no critério do constrangimento, como você deve ter reparado.)

3)O critério da múltipla confirmação de fontes

Vamos explorar o dito cujo em detalhes no próximo post, mas é o que o nome diz: se o mesmo fato básico é relatado por várias fontes independentes, ele provavelmente é mais seguro do que dados presentes numa fonte isolada.

É preciso muito cuidado para usar esse critério porque antes é preciso determinar se uma fonte é independente ou não. Por exemplo: as narrativas da paixão e morte de Jesus nos Evangelhos canônicos talvez remontem todas, na origem, a reelaborações literárias do Evangelho de Marcos, o mais antigo, o que impediria estudiosos de usar esse critério sobre o tema do suplício do Nazareno.

“Independente” tem um sentido técnico importante em pesquisa histórica: é a fonte que não pode ser remontada a outra do ponto de vista literário, ou seja, a fonte que não copiou simplesmente suas informações de outro texto, mas se baseia numa tradição — muitas vezes oral — independente. Isso pode ser inferido a partir de diferenças significativas de vocabulário, ideologia e estrutura narrativa, entre outras coisas.

A conta varia, mas é consensual entre historiadores que, só contando os Evangelhos, há pelo menos três fontes distintas sobre a vida de Jesus: Marcos, o documento Q (provavelmente um documento escrito com ditos de Jesus que foi usado tanto por Mateus quanto por Lucas) e a tradição joanina, do Evangelho de João. Isso sem falar, claro, nas cartas do apóstolo Paulo e em algumas outras epístolas do Novo Testamento.

Voltando aos exemplos: uma das coisas mais prováveis a respeito de Jesus é que, em vida, acreditava-se que ele realizava milagres. (Digo “acreditava-se”, não “fazia”, porque provar que ele realmente fazia é impossível; por outro lado, milagreiros eram figuras comuns tanto em ambientes judaicos quanto pagãos na Antiguidade). O dado está registrado nas nossas três grandes fontes: Marcos, Q e João.

4)O critério da coerência

Esse critério é algo escorregadio. Significa que, se não formos propriamente capazes de corroborar algo com base nos critérios mais firmes que vimos anteriormente, mas se o dado analisado casar bem com o resto da figura de Jesus que passou a ser montado a partir dos critérios anteriores, podemos aceitar esse novo dado como provável.

5)O critério da cruz

“Um Jesus cujos atos e palavras não tivessem provocado antagonismo entre as pessoas, especialmente entre os poderosos, não é o Jesus histórico”, escreve Meier. Esse é o cerne do critério da cruz. Os romanos e a elite judaica eram implacáveis, mas não eram psicopatas completos. Fora de tempos de guerra, não era qualquer um que acabava numa cruz. Era preciso desafiar, de alguma maneira, o poder estabelecido.

Isso significa que visões excessivamente róseas de Jesus — a de um mestre preocupado pura e exclusivamente com o “bem estar espiritual” de seus seguidores, por exemplo — provavelmente não refletem o Nazareno real.

Em tempo: feliz Páscoa pra todo mundo!

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