A cestona de Noé

Por Reinaldo José Lopes

Uma passadinha rápida por aqui para alertá-los, insignes leitores, a respeito da minha reportagem de domingo nesta Folha sobre um dos mais antigos textos que acabariam inspirando a narrativa bíblica da Arca de Noé, recém-decifrado por Irving Finkel, especialista em caracteres cuneiformes (a escrita da antiga Mesopotâmia) do Museu Britânico. A grande surpresa: essa “arca original” teria sido… redonda.

Infográfico magistral da Editoria de Arte da Folha explica a "Arca de Noé" original
Infográfico magistral da Editoria de Arte da Folha explica a “Arca de Noé” original

Aproveito pra compartilhar duas coisinhas rápidas que não couberam no texto de ontem.

Esse negócio não ia funcionar como barco, ia?

Bom, não, e esse não parece ter sido um ponto de preocupação para os autores originais da história. O modelo teria sido inspirado em barcos tradicionais da região, que mais parecem cestos, e cujo forte não é a navegabilidade. Mas eles são muito estáveis e flutuam. Como, a rigor, o “Noé babilônico” Athrahasis não precisava navegar para lugar nenhum, mas sim simplesmente sobreviver ao Dilúvio, bastaria que a cestona boiasse, daí o modelo esquisito.

Noé e Moisés: uma palavrinha em comum

Provavelmente por razões teológicas, tanto o barco do “único justo” da Terra antediluviana e o cestinho no qual o nenê Moisés é colocado e enviado pelas águas do rio Nilo são designados pela mesma palavra hebraica na Bíblia — o termo “teba”, normalmente traduzido como “arca” nas línguas ocidentais. Em ambos os casos, claro, a arca/cesto carregam um salvador. Por curiosidade: o termo usado para designar a Arca da Aliança na qual ficavam guardadas as Tábuas da Lei dadas por Deus aos israelitas é diferente (em hebraico, “aron”).