Preservação e evolução

Por Reinaldo José Lopes

Falácias não faltam quando as pessoas se põem a debater as implicações práticas e éticas da teoria da evolução, e fica difícil escolher a pior delas, mas uma das mais irritantes tem a ver com as (supostas) consequências da biologia evolutiva para as práticas conservacionistas. Afinal, se você é do tipo que aceita a realidade da “sobrevivência do mais forte”, por que deveria se preocupar em salvar o mico-leão-dourado ou o lobo-guará? Afinal, essa bicharada toda está indo para o saco por incompetência, certo? Nós, os supostos mais fortes, ganhamos a competição com eles. Não é isso o que o titio Darwin ensina, senhor evolucionista de carteirinha?

*Suspiro*. Por onde começar a desmantelar esse raciocínio tão fofinho? É muita bobagem junta, mas vamos tentar.

Primeira falácia: a falácia naturalista, ou seja, a mania de misturar a descrição de como as coisas são com o suposto ideal de como elas deveriam ser. Uma investigação policial, por exemplo, tem como objetivo desvendar como e por que um crime foi cometido. Mas só uma cabeça totalmente torta interpretaria esse esforço de compreensão com um esforço de justificação do crime. Do mesmo modo, as ferramentas da ciência nos ajudam a entender os mecanismos e os motivos por trás de uma série de fenômenos, muitos dos quais não são nada bonitos de se ver. Há hipóteses evolutivas para tentar explicar a origem das guerras e dos estupros, por exemplo. Isso nunca significou que não devêssemos tentar evitar esses fenômenos destrutivos — aliás, explicá-los talvez seja o mais eficaz jeito de evitá-los.

Segunda falácia: essa fixação bobona na “sobrevivência do mais forte”. Isso tem fedor de naftalina do século 19, gente bonita. Sim, existe competição feroz na natureza — predação, parasitismo, manipulação maquiavélica da grossa. Mas igualmente importantes e bem sucedidas são as estratégias que envolvem a cooperação, e até a delicadeza, não só entre os membros da mesma espécie (embora eles não façam isso “pelo bem da espécie”), mas também entre espécies diferentes, ainda que nada aconteça de caso pensado. Ecossistemas muitas vezes funcionam na base de um sistema “ganha-ganha”: eu ganho, você também ganha com o funcionamento bem azeitado de determinado ambiente.

Terceira falácia: a de que o abismo ambiental para o qual o planeta às vezes parece estar caminhando é só mais um resultado “natural” (e, portanto, sem implicações éticas significativas) da competição entre uma espécie — no caso, a nossa — e todas as outras.

Desculpa, mas não é assim que funciona, e basta dar uma olhada na história da Terra, e na situação atual, para entender o porquê.

Contei parte do fenômeno nesta reportagem que escrevi na semana passada. A competição “natural” entre espécies pode levar à diminuição de uma delas, ou de um pequeno grupo delas, enquanto seus predadores ou parasitas prosperam. Podem acontecer epidemias ocasionais, nas quais um micro-organismo patogênico dizima uma espécie, mas precisa de um tempão para se adaptar e saltar a barreira de espécies, atingindo um novo alvo. Agora, quando 30% dos vertebrados e quase metade dos invertebrados passam por uma diminuição considerável de sua população num intervalo de 40 anos, é porque a coisa extrapolou, em muito, a “luta pela sobrevivência” tradicional. Quem costuma fazer isso é asteroide caindo, gente.

O nome desse tipo de fenômeno é um só: extinção em massa.

E, em 99% das vezes, extinções em massa são causadas por fatores cósmicos ou geológicos — não por outras espécies. O que significa que nós, seres humanos, viramos uma força geológica/cosmológica. Parabéns pra nós. Não é à toa que muita gente tem chamado nossa época de Antropoceno — um novo período geológico no qual a força dominante é a ação humana.

O que, claro, leva-me à minha conclusão. É perfeitamente racional ser um defensor da biologia evolutiva e se preocupar com essa crise de biodiversidade porque nós acabamos de mudar radicalmente as regras do jogo e, se não tomarmos cuidado, podemos arrastar boa parte da biodiversidade da Terra junto conosco para o buraco. A Terra seria capaz de se recuperar? Muito provavelmente sim — já conseguiu fazer isso cinco vezes antes (é a conta das Big Five, as cinco grandes extinções em massa da história do planeta). Mas a demora para essa recuperação, e a contagem de corpos, seria tamanha que só um psicopata de proporções galácticas iria adiante com isso. Quero crer que a nossa espécie não é esse psicopata.

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