Mistério dos tempos da Bíblia

Por Reinaldo José Lopes

As estatuetas de moças nuas que vocês estão vendo aí embaixo são um dos maiores mistérios dos tempos bíblicos — tão misteriosos que, na verdade, nem aparecem na Bíblia propriamente dita. É justo dizer que, apesar de inúmeras hipóteses e muita pesquisa, o significado delas ainda é totalmente obscuro para nós.

As misteriosas estatuetas femininas do antigo reino de Judá (Crédito: Reprodução)
As misteriosas estatuetas femininas do antigo reino de Judá (Crédito: Reprodução)

Os arqueólogos costumam chamá-las de “figuras judaítas em forma de pilar”. A última parte do nome tem explicação óbvia, creio — de fato, elas parecem pequenos pilares. São “judaítas” porque foram todas encontradas no território do antigo reino de Judá, o reino israelita do sul, cuja capital era Jerusalém e que, segundo a narrativa bíblica, existiu do ano 930 a.C. ao ano 586 a.C., quando foi destruído pelos babilônios. (A cronologia real é provavelmente mais tardia e complicada, mas isso é assunto pra outro post).

Na maioria dos casos, as moças aparecem com os seios exagerados, segurando-os, mas também é comum achar estatuetas nas quais a mulher está segurando um disco — um pandeiro? uma bandeja? –, em vez dos seios.

O curioso é que essas estátuas estão presentes apenas no território de Judá — não aparecem no território do reino do norte, Israel. Sua idade vai do século 8º a.C. ao século 6º a.C. Não sabemos por que elas eram fabricadas ou usadas. Há quem fale num culto a uma deusa israelita, Asherah, em paralelo ao culto de Javé, o Deus bíblico por excelência, mas não há associação arqueológica direta entre a presença das estatuetas e contextos de culto religioso (como sacrifícios de animais, por exemplo).

Há ainda propostas de ligar os objetos a rituais de dança religiosa envolvendo mulheres (no caso das imagens com supostos pandeiros) ou relativos à fertilidade ou à amamentação (por conta dos seios grandes, claro). De novo, porém, não há evidências diretas que corroborem nenhuma das possibilidades. No caso do suposto ritual de fertilidade, em outras regiões do antigo Oriente Próximo estatuetas de mulheres não eram usadas para esse fim, então não há dados comparativos que apoiem essa ideia.

As estatuetas seriam violações dos mandamentos da lei de Moisés para não produzir ídolos ou adorar outros deuses que não Javé? Só se fossem mesmo imagens cúlticas — e, mais uma vez, não há como demonstrar isso, ao menos por enquanto. O fato, porém, é que elas continuam sendo fabricadas aos montes, inclusive dentro dos muros de Jerusalém, do lado do Templo de Javé, durante o reinado de dois reis de Judá que teriam combatido práticas pagãs de seus súditos: Ezequias (739 a.C. – 687 a.C.) e Josias (648 a.C. – 609 a.C.). Só a conquista de Jerusalém pelos exércitos da Babilônia põe fim à fabricação delas. Os textos bíblicos não parecem mencioná-las diretamente em nenhuma passagem.

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