David matou Golias. Né?

Por Reinaldo José Lopes

Essa qualquer moleque sabe, mesmo que ele tenha sido criado numa família não religiosa: quem matou o gigante Golias com uma pedrada lançada por sua funda foi David, certo?

Na Antiguidade, um pessoal estava meio em dúvida, porém. Tipo o pessoal que escreveu um tal de Segundo Livro de Samuel. Na Bíblia.

“Elcanã, filho de Iari, de Belém, matou Golias de Gat; a madeira de sua lança [isto é, da lança de Golias] era como cilindro de tecedeira.”

David com a cabeça de Golias em pintura de Caravaggio: será que ele foi o matador mesmo?
David com a cabeça de Golias em pintura de Caravaggio: será que ele foi o matador mesmo?

É só isso — nada de descrição épica ou falas grandiloquentes. Essa passagem aparece numa espécie de apêndice do livro, vários capítulos DEPOIS da história tradicional da luta entre David e Golias que todos conhecemos e amamos, presente no Primeiro Livro de Samuel.

Atenção aos detalhes: 1)O tal Elcanã, um ilustre desconhecido, nasceu em Belém, coincidentemente ou não a mesma cidade natal de David; 2)Não apenas o nome “Golias” é o mesmo, mas o texto diz que ele era de Gat, a mesma cidade de origem do gigante na narrativa sobre David; 3)a descrição da lança “como cilindro de tecedeira” (o que quer dizer que era uma haste bastante grossa, adequada a um gigante) também é igualzinha à que aparece no capítulo anterior.

Desculpaí, mas é o mesmo Golias. Então, quem apagou o homem, David ou Elcanã?

Conclusão consensual entre os principais estudiosos do texto bíblico: muito mais famoso do que seu conterrâneo, David “atraiu” para si a história do feito, o que é um fenômeno comum no caso de heróis de outras culturas. Os autores bíblicos, no entanto, possuíam a tradição paralela da morte do guerreiro e acabaram por registrá-la. Faz muito mais sentido eles “transferirem” o feito de Elcanã para David do que o contrário.

Pense nisso da próxima vez que alguém disser que a Bíblia é 100% infalível em todos os assuntos, da história antiga à cosmologia, que ela nunca se contradiz nem tem pontos obscuros. O exemplo acima é apenas um de inúmeros. Nada contra acreditar na inspiração divina do texto — até porque eu também acredito. Mas não parece sensato achar que essa inspiração não foi moldada por mãos e mentes humanas, e que não é preciso discernimento e trabalho humano para entender as tensões e complexidades do texto.

Shabat Shalom pra todo mundo!

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