Deus ou o Diabo?

Por Reinaldo José Lopes

E, já que estamos falando das transformações políticas e ideológicas que o(s) autor(es) dos livros bíblicos das Crônicas operaram a partir do material mais antigo que herdaram dos livros de Samuel e dos Reis (para mais detalhes, confira este post, e também este aqui), sugiro que a gente aproveite e considere as passagens paralelas abaixo.

O contexto da história é o recenseamento do povo israelita feito por David — uma ação considerada pecaminosa pelos autores bíblicos, já que só Deus teria o poder de “fazer a conta” dos vivos e dos mortos no antigo Israel.

Capítulo 24 do Segundo Livro de Samuel:

“A ira de Iahweh se acendeu contra Israel e incitou David contra eles: ‘Vai’, disse ele, ‘e faze o recenseamento de Israel e de Judá’.”

Capítulo 21 do Primeiro Livro das Crônicas:

“Satã levantou-se contra Israel e induziu David a fazer o recenseamento de Israel.”

Foi Deus ou o Diabo o responsável por estimular o funesto recenseamento (que acabaria levando à punição divina, com uma peste que dizimaria os israelitas)?

A resposta, no fundo, provavelmente é simples: a teologia judaica passou por uma evolução considerável entre a época em que os livros de Samuel e os livros das Crônicas foram escritos. Num primeiro momento, atribuía-se praticamente tudo, inclusive coisas aparentemente ruins, à onipotência de Deus. Só mais tarde a figura de Satã, um inimigo sobrenatural do ser humano e do próprio Deus, tornou-se relevante na teologia judaica.

Com base nesse fato, o autor de Crônicas achou necessário “corrigir” ou “esclarecer” a narrativa mais antiga, atribuindo a Satã, e não a Deus, a ideia do recenseamento.

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