Como reagir ao Design Inteligente?

Por Reinaldo José Lopes

Aviso aos navegantes: este é mais um post da nossa série “raio-X do Design Inteligente/neocriacionismo no Brasil”, que detalha os resultados da reportagem que escrevi nesta semana para a versão impressa da Folha. Já temos farto material sobre o tema — confiram os links abaixo, por gentileza.

Reportagem na Folha: congresso reúne defensores do Design Inteligente, versão modernizada do criacionismo

Entrevista com pesquisador da Universidade Federal do Amazonas e adepto do DI

O paradoxo da cebola: por que as afirmações do Design Inteligente sobre o genoma não se sustentam

Neste post, a ideia é avançar no diagnóstico sobre o crescimento do Design Inteligente no país e ser um pouco mais propositivo: o que a gente deve fazer para entender melhor o fenômeno e impedir que ele se fortaleça mais? Para isso, conto com a ajuda inestimável de Eduardo Rodrigues da Cruz, físico e teólogo da PUC de São Paulo e especialista justamente nas interações entre ciência e religião.

Procurei-o para uma entrevista sobre o DI no país, mandando um e-mail para ele, e o professor Cruz me respondeu com uma citação intrigante — do Evangelho de Lucas.

“Vendo o desassossego da esmagadora maioria dos pesquisadores [com a realização de um congresso de grande porte dos adeptos do Design Inteligente], faço minhas as palavras do evangelho: ‘chorem por vocês próprias e por seus filhos’ (Lc 23:28).”

Espero que você entendam melhor a citação e os desafios da comunidade científica em relação ao DI na entrevista abaixo.

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Darwin e Deus – Primeiro, explique um pouco melhor, por favor, a sua referência às “filhas de Jerusalém” que choravam por Jesus. Acho que estou um pouco lerdo por causa do calor e não consegui entender o que o sr. quis dizer 😉

Bem, percorrendo o Facebook e a web, nota-se o tom agressivo e irônico da maioria de cientistas atacando o DI. Entretanto, ao invés de chorar pela situação, deveriam chorar por eles próprios— ao invés de procurar a culpa no inimigo, deveriam refletir sobre a própria parcela de responsabilidade nesse estado de coisas. Outra imagem que me vem à mente é a do aprendiz de feiticeiro—quanto mais machadadas se dá na vassoura “DI”, mais ela se multiplica e carrega sua água (ideias) indefinidamente. Tá na hora da comunidade científica fazer um “soul searching” [introspecção para entender o que está errado].

O sr. vê alguma mudança “tectônica” significativa no nível de organização e participação de cientistas dos grupos criacionistas e ligados ao Design Inteligente no Brasil? Parece-me que até alguns anos atrás eles não teriam força para organizar um evento de escala maior, como esse que ocorrerá em Campinas. Alguma hipótese para imaginar o que mudou, se é que algo mudou mesmo?

Bem, olhando a quantidade de pessoas envolvidas na organização do evento, a maioria ligada a universidades seculares, nota-se realmente uma mudança. O enorme número de patrocinadores também indica isso. Além do maior poder de penetração evangélico em todos os níveis (quando mais criacionista, maior a capacidade de penetração). Além disso, nota-se a capacidade de liderança de Marcos Eberlin, realmente a pessoa que faltava para o movimento explodir aqui no Brasil.

As figuras mais destacadas entre os organizadores do evento são quase invariavelmente químicos. Isso talvez seja apenas o papel do Marcos Eberlin, da Unicamp, que é um químico que publica muito e orienta muito, além de ser um defensor muito “vocal” do DI, ou há alguma razão especial para químicos se interessarem particularmente por esse tema?

Não, acredito que a maior razão seja a capacidade de liderança e a competência do Marcos. Além disso, tratar de evolução na química parece ser menos controverso do que na biologia.

A equação “quanto mais evangélicos no Brasil, mais criacionismo/defensores do DI” é simplista, na opinião do sr.?

De fato, é uma posição meio simples, mas esse fator causal está certamente presente no panorama brasileiro. Por culpa da própria comunidade científica, há poucos estudos sérios a respeito. Por exemplo, salvo engano, nenhum sociólogo se importou em buscar dados que respaldassem essa proposição. Nenhum estudo de publicações dos evangélicos, do que é ensinado nas escolas dominicais, etc.. Tudo o que temos são impressões e alguns estudos de cientistas ligados à educação, muito restritos. É como se os cientistas soubessem o que significa o criacionismo e o DI, assim não haveria razões para pesquisar o assunto, apenas para polemizar. Esse descaso acaba de reforçar a metáfora indicada na primeira questão.

Quando a gente conversa com os defensores do DI, eles dizem que não conseguem publicar não porque não tenham capacidade de defender suas teses numa revista científica, mas sim porque os editores das revistas barram tais publicações por princípios ideológicos. Como se deve enxergar essa justificativa deles, na opinião do senhor?

De fato, é uma argumentação antiga, mas não há como ser “politicamente correto” aqui. O fosso que separa as propostas do DI e os da ciência normal é tão significativo que as revistas científicas devem mesmo colocar essas publicações sob intenso escrutínio. Agora, esses periódicos também erram, e alguma pesquisa relevante pode ser deixada de lado apenas por causa do nome de quem o publica.

Retomando uma das questões anteriores, além de tentar buscar mais conhecimento sobre o fenômeno, que outra estratégia a comunidade científica deveria adotar diante do DI? A de simples confronto está errada, na sua opinião?

Creio que a estratégia de confronto deve continuar, pois trata-se de enfrentar grupos muito ativos, que procuram a menor brecha para se instalar. Porém essa estratégia não deve ser a única. Há que se pensar uma agenda positiva, onde por exemplo enfrenta-se um movimento religioso com alianças com religiosos mais confiáveis. Ver esse exemplo recente da Associação Americana para o Progresso da Ciência: a liberação de verbas para ensinar ciência num seminário jesuíta na Califórnia.

Tá achando que acabou? Amanhã tem mais!

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