Chicão e a evolução

Por Reinaldo José Lopes

O dia foi complicado, o que me impede de fazer mais um post de fôlego como os anteriores da semana, mas queria falar rapidinho da declaração do papa Francisco sobre a teoria da evolução e o Big Bang nesta semana (sobre a qual, aliás, escrevi para a versão impressa da Folha nesta semana, aqui e aqui). Queria aproveitar para colocar abaixo a tradução oficial do Vaticano da fala do pontífice hermano, que também pode ser lida neste link. Os parágrafos relevantes sobre ciência e religião são estes:

Golaço, hein, Chicão? (Crédito: Divulgação)
Golaço, hein, Chicão? (Crédito: Divulgação)

“Caros acadêmicos, na conclusão da vossa sessão plenária estou feliz por expressar a minha profunda estima e o meu caloroso encorajamento a levar em frente o progresso científico e a melhoria das condições de vida das pessoas, especialmente dos mais pobres.

Enfrentais o tema altamente complexo da evolução do conceito de natureza. Como podeis bem entender, não abordarei a complexidade científica desta questão relevante e decisiva. Só quero frisar que Deus e Cristo caminham ao nosso lado e estão presentes também na natureza, como afirmou o apóstolo Paulo no discurso no Areópago: «Em Deus temos a vida, o movimento e o nosso ser» (Atos dos Apóstolos 17, 28). Quando lemos no Gênesis a narração da Criação, corremos o risco de imaginar que Deus foi um mago, com uma varinha mágica capaz de fazer tudo. Mas não é assim! Ele criou os seres e deixou que se desenvolvessem segundo as leis internas que Ele mesmo inscreveu em cada um, para que progredissem e chegassem à própria plenitude. E deu a autonomia aos seres do Universo, assegurando ao mesmo tempo a sua presença contínua, dando o ser a todas as realidades. E assim a criação foi em frente por séculos e milênios, até se tornar aquela que hoje conhecemos, precisamente porque Deus não é um demiurgo nem um mago, mas o Criador que dá a existência a todos os seres. O início do mundo não é obra do caos, que deve a sua origem a outrem, mas deriva diretamente de um Princípio supremo que cria por amor. O Big Bang, que hoje se põe na origem do mundo, não contradiz a intervenção criadora divina, mas exige-a. A evolução na natureza não se opõe à noção de Criação, porque a evolução pressupõe a criação dos seres que evoluem.

Ao contrário, no que se refere ao homem, nele há uma mudança e uma novidade. Quando, no sexto dia da narração do Gênesis, chega a criação do homem, Deus confere ao ser humano outra autonomia, uma autonomia diferente daquela da natureza, que é a liberdade. E diz ao homem que dê um nome a todas as criaturas e progrida ao longo da história. Torna-o responsável da criação, também para que domine a Criação e a desenvolva, e assim até ao fim dos tempos. Portanto ao cientista, e sobretudo ao cientista cristão, compete a atitude de se interrogar sobre o porvir da humanidade e da terra e, como ser livre e responsável, de concorrer para o preparar e preservar, eliminando os riscos do ambiente, tanto natural como humano. Mas, ao mesmo tempo, o cientista deve ser impelido pela confiança de que, nos seus mecanismos evolutivos, a natureza esconde potencialidades que compete à inteligência e à liberdade descobrir e pôr em prática para alcançar o desenvolvimento que se encontra no desígnio do Criador. Então, por mais limitada que seja, a obra do homem participa no poder de Deus e é capaz de construir um mundo adequado à sua dúplice vida corpórea e espiritual; edificar um mundo humano para todos os seres humanos, e não para um grupo ou classe de privilegiados. Esta esperança e confiança em Deus, Autor da natureza, e na capacidade do espírito humano são capazes de conferir ao investigador uma nova energia e uma profunda tranquilidade. Mas é também verdade que a obra do homem, quando a sua liberdade se torna autonomia — que não é liberdade, mas autonomia — aniquila a criação e o homem toma o lugar do Criador. Eis o grave pecado contra Deus Criador!”

ECOANDO DARWIN?

Taí a fala do Chicão, portanto. Antes de mais nada, não tem nenhuma novidade assim muiiiito novidadesca na fala dele — outros pontífices já haviam dado seu beneplácito, ainda que com algumas ressalvas, a Darwin e ao Big Bang (saiba mais neste post antigo do blog). Vou chamar a atenção pra apenas duas coisinhas, porém. Um fato curioso é que senti Francisco ecoando Darwin textualmente. Ao falar das “leis internas” de desenvolvimento dos seres que levaram à evolução do Cosmos, ele me lembrou de um trecho presente em algumas — não todas! — as edições de “A Origem das Espécies”, na qual Darwin menciona a ideia de a vida ter sido “bafejada originalmente pelo Criador em uma ou algumas poucas formas”, as quais, mais tarde, foram evoluindo e se diversificando segundo leis naturais. Detalhe importante: isso NÃO ESTÁ na primeira edição do clássico de Darwin, é algo que foi inserido em versões posteriores do livro de modo a contentar os críticos religiosos do livro.

Segundamente, alguém poderia perguntar: será que o papa virou deísta? Ou seja, um adepto do deísmo, a ideia de que Deus deu a corda no mecanismo do Universo, por assim dizer, e foi dormir?

Não, não é isso. A chave é a “presença contínua” divina citada pelo papa. A ideia é que, embora o Universo funcione largamente com base em leis naturais, a relação do Criador com o mundo criado é o que mantém a própria existência desse mundo criado.

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