Reação ao manifesto do Design Inteligente

Por Reinaldo José Lopes

Um grupo de professores e alunos da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), aos quais estão começando a se somar pessoas de outras universidades importantes, resolveu redigir e divulgar uma resposta ao manifesto da Sociedade Brasileira do Design Inteligente, grupo de cientistas contrários à teoria da evolução, lançado no mês passado.

O que é o Design Inteligente? Confira os links abaixo para entender, insigne leitor.

Reportagem na Folha: congresso reúne defensores do Design Inteligente, versão modernizada do criacionismo

Entrevista com pesquisador da Universidade Federal do Amazonas e adepto do DI

O paradoxo da cebola: por que as afirmações do Design Inteligente sobre o genoma não se sustentam

Como reagir ao Design Inteligente?

Você pode conferir a resposta ao manifesto antidarwinista clicando aqui. Copio e colo também o texto abaixo. No link, é possível colocar seu próprio nome nos comentários, num formato de abaixo-assinado.

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Recentemente ocorreu em Campinas o I Congresso Brasileiro do Design Inteligente. O manifesto do evento admite que a opinião atual da academia ainda não acata, em sua maioria, a teoria do design inteligente (TDI) e o seu ensino. No entanto, o referido manifesto exige que as escolas brasileiras ensinem alegadas deficiências da teoria evolutiva e que informem uma suposta disputa com a TDI. Nosso manifesto de resposta, porém, repudia esses dois posicionamentos e alerta o público que a TDI não pode ser considerada científica.

A TDI não se apresenta como uma alternativa à teoria evolutiva tanto por ela não ser aceita por grande parte da comunidade científica (ver anexo), quanto por não se configurar como uma teoria científica. A ciência é inerentemente limitada a fornecer descrições e/ou explicações naturais sobre o mundo e não se relaciona com alegações sobrenaturais. Por esse motivo, teorias como a do design inteligente são imediatamente descartadas como ciência, pois possuem uma dependência explícita ou implícita a causas sobrenaturais. Além disso, os conceitos elaborados pelos defensores da TDI são demasiado vagos para permitir previsões específicas e alcançar qualquer forma de unificação explicativa. A TDI é inconsistente com diversas áreas da ciência, desde a Geologia de Petróleo (que preconiza em suas previsões a evolução da vida) até as Ciências da Vida. Os proponentes da TDI também se recusam a entrar em detalhes sobre os mecanismos e métodos utilizados pelo designer, e a maior parte da literatura dessa área consiste em argumentos puramente negativos contra a evolução, com o propósito de distorcer a ciência e inserir dúvidas infundadas.

A alegação de que a teoria evolutiva apresenta inconsistências graves é apresentada de forma distorcida no manifesto da TDI Brasil. A controvérsia que existe na teoria evolutiva, e que pode ser apresentada nas escolas, se refere aos debates atuais no pensamento evolutivo, como em relação a formas de herança não genética e ao papel do desenvolvimento embrionário nas mudanças evolutivas. Contudo, nenhuma dessas novidades no corpo teórico invalida a evolução como fato. Teorias são estruturas de ideias que explicam e interpretam fatos. A biologia evolutiva continuamente elabora novas abordagens teóricas, mas essas, ao contrário do que é pronunciado no manifesto da TDI Brasil, acumulam cada vez mais evidências a favor da evolução da vida.

Por isso, a alegada disputa entre TDI e teoria evolutiva não se sustenta e não deve ser apresentada no ensino básico, uma vez que o design inteligente não apresenta aspectos fundamentais de uma teoria científica. As controvérsias constituem aspectos imprescindíveis no conhecimento científico e, portanto, devem ser levadas em conta no seu ensino. No entanto, a inclusão de controvérsias científicas no currículo escolar deve ser criteriosa. Propostas com pouca sustentação na ciência e que não constituem controvérsias genuínas não fazem parte da educação científica, como a chamada Teoria do Design Inteligente, que sequer pode ser considerada como hipótese científica.

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Depois de ler esse breve texto, minha vontade é cantarolar aquela musiquinha do Rá Tim Bum que dizia “Viu/Como se faz?”. É assim que se debate uma questão científica, gente: com firmeza, clareza, mas sem retórica e sem raiva, colocando os pingos nos is.
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