Um certo galileu

Por Reinaldo José Lopes

Como é de conhecimento de alguns dos leitores assíduos do blog, no último dia de Natal esta Folha publicou uma reportagem de minha autoria resumindo as conclusões do novo livro do historiador americano Bart Ehrman, especialista em cristianismo antigo. O propósito de Ehrman não é nada modesto: explicar como os primeiros cristãos passaram a acreditar que Jesus, um profeta pobre e obscuro da Galileia, era Deus encarnado.

Apesar da proximidade do Natal, consegui algumas breves e interessantes entrevistas de última hora com alguns especialistas em cristianismo antigo, mas não consegui aproveitar a maioria delas no meu texto (sempre o espaço, a fronteira final, atrapalhando a gente). Aproveito, portanto, para colocar o que eles disseram aqui.

Uma nota sobre terminologia antes das entrevistas:

— Tradicionalmente, fala-se em “alta cristologia” e “baixa cristologia” para denominar certos tipos de crença sobre a natureza de Jesus Cristo. As “altas cristologias” são as que costumam atribuir a ele uma origem divina desde seu nascimento ou até antes dele, desde a eternidade, como igual perante Deus Pai, por exemplo. Já “baixas cristologias” tendem a enxergar Jesus como um humano que, ao ressuscitar ou ao ser batizado, assumiu uma proximidade espiritual sem precedentes em relação a Deus.

— Uma terminologia alternativa é a de “cristologias de exaltação” e “cristologias de encarnação”. As primeiras se assemelham, em parte, às baixas cristologias, mas nelas Jesus pode ser exaltado — após a ressurreição, por exemplo — a uma posição virtualmente divina. Já nas cristologias de encarnação a crença é que ele é, desde sempre, um ser divino que assume a condição humana.

Dito isso, vamos aos nossos especialistas!

Começamos com o pastor luterano Emilio Voigt, professor da Escola Superior de Teologia de São Leopoldo (RS):

“Este livro do Bart Ehrman eu ainda não li, por isso não tenho muito como opinar. Coloquei na minha lista de leituras para 2015. Geralmente o autor levanta questões bem pertinentes e com embasamento.

É plausível que tenha havido grandes transformações no pensamento cristológico logo nas primeiras décadas. Eu acho que o hino transcrito em Filipenses [carta de São Paulo] ainda não é representante típico de uma cristologia da encarnação, mas contém um misto de cristologias da exaltação com cristologias da encarnação. Em todo caso, esse hino (ou poema) pré-paulino mostra que cristologias da encarnação são, de fato, bem antigas. Falo em cristologias porque considero que o cristianismo não teve pensamento uniforme. Em todo caso, a crença na ressurreição é um fator decisivo para o desenvolvimento das cristologias e do cristianismo.”

Agora, com a palavra, Jonas Machado, da Faculdade Teológica Batista de São Paulo:

“Acompanho as publicações de Ehrman desde seu famoso ‘Misquoting Jesus’. Sim, acho que ele tem razão. Vou mais longe. A divinização de seres humanos aparece em setores do judaísmo antigo. Acredito que isto conviveu com o monoteísmo judaico de modo dialético. Portanto, a divinização de Jesus não foi uma completa novidade. Tenho textos publicados sobre isto.”

Finalmente, temos o americano Larry Hurtado, professor aposentado da Universidade de Edimburgo (Reino Unido).

“Em relação às afirmações de Ehrman de que Paulo pensava no Jesus ‘pré-existente’ [à sua encarnação] como um ser angélico, essa não é uma visão muito comum entre especialistas no Novo Testamento. ‘Anjo/angélico’ é demasiadamente preciso (ou mesmo simplista) em comparação com as afirmações do Novo Testamento. Nenhum texto o considera um anjo ou usa essa categoria para encaixá-lo. De fato, o texto em questão em Filipenses diz que Jesus estava ‘en morphé theou’ (‘em forma de Deus/de um deus’), isto é, comparando-o a Deus, não a anjos. Os autores bíblicos, no entanto, não estavam interessados em especulações filosóficas. Em vez disso, seu foco era afirmar que a figura histórica de Jesus também era o único Filho de Deus e até que ele tinha sido o único agente da criação de Deus (como em 1 Coríntios 8, 4-6) e agora é também o único Senhor da Salvação.

Também questiono a ideia de que podemos mapear totalmente a ‘cristologia’ de um autor a partir de um único texto. Nenhum texto do Novo Testamento afirma ser a ‘cristologia’ de um autor. Isto é, nenhum afirma nos dar um relato completo das crenças desse autor. Em vez disso, cada texto foi escrito para propósitos pastorais e práticos, e os autores deixam suas crenças cristológicas como um pressuposto.

Em certos textos (a Carta aos Hebreus, por exemplo), o autor busca amplificar certos temas cristológicos, mas até um texto desse tipo não chega a ser uma ‘cristologia’. Então, acho que é muito dúbio comparar um texto do Novo Testamento com outro e dizer que um tem cristologia ‘alta’ e a do outro é ‘baixa’. Todos os textos do Novo Testamento pressupõem que Jesus compartilha de forma única a glória de Deus e sua dignidade e reverência na qualidade de ‘Senhor’. Isso é bastante ‘alto’ em qualquer sentido significativo da palavra.”

O debate, óbvio, é complicado e vai longe.

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