Dentes de galinha, esmalte de avestruz

Por Reinaldo José Lopes

Não, idolatrado leitor, não se trata de um feitiço meia-boca da Bruxa Baratuxa, mas de uma nova e fascinante pesquisa sobre como certos dinossauros acabaram dando origem às aves. A pesquisa faz parte do pacotão de novos estudos publicados recentemente sobre o genoma das aves do planeta — você pode ler um pouco mais a respeito neste post que fiz na semana passada. Sendo um pouco mais específico: as aves todas, como sabemos, têm bicos, e não dentes. Dinossauros, por outro lado, podiam ser bem dentuços, embora alguns também tivessem bicos parciais ou completos. Como uma coisa acabou dando na outra?

Bem, a equipe de Robert Meredith, da Universidade Estadual Montclair (EUA), vasculhou o genoma de cerca de 50 espécies de aves e descobriu que vários dos genes que são essenciais para a boa “construção” do esmalte e da dentina, dois componentes essenciais dos dentes, como você provavelmente sabe, estão presentes no DNA dos vertebrados emplumados. Mas a questão é que eles estão inativados — sofreram mutações que os transformaram em “pseudogenes”, ou seja, antigos genes que já não servem para nada.

Foi preciso um trabalho comparativo dos diabos para chegar a essa conclusão, então acho que os autores da pesquisa merecem que eu explique um tiquinho melhor. Os tais genes — há seis deles, cinco ligados à produção de esmalte e um à “fabricação” de dentina — não são os únicos ligados à formação dos dentes, obviamente, mas aparentemente estão entre os que só têm essa função e não são essenciais a outros fenômenos do organismo.

O que Meredith e companhia fizeram foi “soletrar”, letra a letra química do DNA (as famosas A, T, C e G), esses genes no DNA das aves. De quebra, compararam a versão desse “texto” genômico presente nas células das aves às versões que existem tanto no genoma de outros vertebrados desdentados ou semidesdentados (como tartarugas-marinhas, tatus e pangolins) quanto no DNA de bichos com dentições normais (como cães e elefantes).

ERRO DE LEITURA

Essa comparação toda deixou claro, em primeiro lugar, que as aves atuais compartilham com outros bichos desdentados (mas não com animais que possuem dentes) mutações que inutilizaram os tais genes.

Uma das mais interessantes é um tipo de mutação conhecido como “frameshift” (mudança de moldura). O que acontece é que o DNA, para ser “lido” e funcionar como receita para produção de proteínas, as moléculas que realmente desempenham funções ativas na célula, tem de ser “lido” em trios de letras, chamados códons — algo como as letras ACC, por exemplo. Se uma das letras do meio da trinca se perde por causa de uma mutação, a leitura pode começar mais para a frente (dando, por exemplo, um CCT), e isso pode inutilizar o gene.

É como se a frase “Reinaldo é chato” perdesse as primeiras letras e ficasse apenas “-ldo é chato”.  Não faz mais sentido, certo? É a mesma coisa com o DNA.

Outras mutações introduziram o chamado códon de parada — um sinal que interrompe a “leitura” do DNA. Ou seja, caso a célula vá ler esse gene que sofreu a mutação, o resultado será uma proteína truncada, sem função.

E por aí vai. As aves e os demais bichos desdentados possuem os genes para “fabricar dente”, mas eles estão, na prática, inutilizados. No caso das aves, os cientistas estimam que o ancestral comum de todos os penosos de hoje se tornou desdentado por completo há pouco mais de 100 milhões de anos (quando ainda existiam tanto aves dentuças quanto dinossauros).

MORAL DA HISTÓRIA

Não deveria ser preciso escrever isso, mas escrevo assim mesmo: acho difícil uma evidência mais direta e clara da origem das aves a partir de outros grupos de vertebrados. Não existe ave dentuça hoje. Mesmo assim, toda espécie desse grupo carrega em seu DNA uma “fábrica de dentes” quebrada, mas ainda facilmente reconhecível. Se as aves são fruto direto do trabalho de um “designer”, sobrenatural ou não, alguém pode me dizer porque ele resolveria fazer uma pegadinha com os cientistas, largando essa tralha lá no genoma aviário apenas para confundi-los?

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