As raízes da violência religiosa

Por Reinaldo José Lopes

A escritora e ex-freira britânica Karen Armstrong, 70, é uma máquina de produzir livros densos e bem escritos sobre a história das religiões, e transita com facilidade impressionante entre as ideias das principais crenças do planeta, do budismo e zoroastrismo ao cristianismo antigo. Acabo de ler seu mais recente livro, chamado “Fields of Blood: Religion and the History of Violence” (“Campos de Sangue: Religião e a História da Violência”). Em tempos de Je Suis Charlie, o tema parece urgente. Segundo Armstrong, quais as raízes da violência cometida em nome de Deus, dos deuses ou dos santos?

A escritora britânica Karen Armstrong (Crédito: Patricia Santos/Folhapress)
A escritora britânica Karen Armstrong (Crédito: Patricia Santos/Folhapress)

Bem, lá vou eu tentar resumir um livro de 550 páginas em alguns parágrafos, mas o curioso é que variações do mesmo tema reaparecem direto ao longo da obra, e olha que Armstrong examinou um período gigantesco de tempo, da antiga Mesopotâmia aos atentados de 11 de setembro e a atual era da “Guerra ao Terror”. No fundo, no fundo, as causas da violência religiosa são duas, diz Armstrong:

1)O “casamento” muito estreito entre uma tradição religiosa e o poderio do Estado;

2)Mudanças sociais e políticas que encurralam uma tradição religiosa, levando à reação fundamentalista — uma tentativa de sobreviver a essas mudanças a qualquer preço.

É óbvio que o fator 1 foi muito mais importante no passado. É fácil falar de “separação entre Igreja e Estado” no mundo de hoje, mas ela conta de forma muito clara como, ao longo da Antiguidade, não fazia sentido em falar da separação entre religião e política porque não havia nem uma palavra específica para designar “religião”, para começo de conversa.

A atividade religiosa estava imbricada, “junta e misturada”, em todas as esferas da vida. Só para dar um exemplo, o mero ato de comer carne, uma iguaria rara no antigo Mediterrâneo, normalmente envolvia se banquetear com as sobras do sacrifício de um animal aos deuses — e isso tanto na Grécia Antiga quanto na Babilônia ou no antigo Israel. Governantes eram divinos ou, no mínimo, “filhos adotivos” da divindade, e por aí vai.

DE REVOLUCIONÁRIOS A REACIONÁRIOS

Nesse estado de coisas, é curioso o destino de quase todos os movimentos reformistas ou revolucionários que buscaram a primazia da Regra de Ouro — o célebre “Não façais aos outros o que não quereis que vos façam” — nas grandes religiões. A busca da não violência e do amor fraterno “evoluiu” de forma independente em movimentos tão diferentes quanto o confucionismo na China, o budismo e as muitas formas de hinduísmo na Índia, os profetas hebraicos e o movimento de Jesus no judaísmo e cristianismo primitivo etc.

Mas, uma vez que esses movimentos se tornaram dominantes em suas culturas, foram “fagocitados” — se é que eu posso usar uma metáfora da biologia celular — pela relação tradicionalmente próxima entre governos/impérios e a religião. E, na Antiguidade, governos eram duas coisas: máquinas de guerra e máquinas de extrair impostos da população. E isso não se faz eficientemente sem violência, como o leitor certamente é capaz de imaginar. Resultado: temos religiões “da paz” justificando a opressão e a violência. E, claro, sendo usadas para justificar ambições imperiais ou nacionais que pouco ou nada tinham a ver com Deus.

Beleza, esse estado de coisas funcionou mais ou menos até o século 18, na maior parte do mundo. E os fundamentalismos violentos modernos?

Acho que Armstrong acerta o alvo ao mostrar que muitos deles têm a ver com a opressão neocolonial, em especial em países de maioria muçulmana e hindu — do mundo árabe ao Paquistão e à Índia.

Nesses casos, tudo começou com o domínio de governos imperiais europeus, ou de seus lacaios ou sucessores locais, que tentaram impor uma modernização/secularização extremamente agressiva, “de cima para baixo”, sem levar em conta as tradições religiosas e culturais de cada local e, claro, os interessantes das populações dominadas.

Resultado: quem não conseguiu “surfar a onda” modernizante acabou se apegando a uma versão cada vez mais militante e intransigente de sua tradição religiosa como antídoto à dominação — e o resultado a gente andou vendo nas últimas décadas. O diagnóstico me parece convincente. É claro que é muito mais difícil saber qual o tratamento correto para a doença.

Para os interessados, eis o link de uma breve entrevista que ela me concedeu, por e-mail, tempos atrás.

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