Stephen e o Senhor

Por Reinaldo José Lopes
Jane (Felicity Jones) e Stephen (Eddie Redmayne): xaveco científico fofo (Crédito: Divulgação)
Jane (Felicity Jones) e Stephen (Eddie Redmayne): xaveco científico fofo (Crédito: Divulgação)

É preciso ter coração de pedra pra não se debulhar em lágrimas no finzinho de “A Teoria de Tudo”, filme que narra a vida do físico britânico Stephen Hawking e sua relação com a primeira esposa, Jane, que acaba de chegar ao Brasil (confira aqui a resenha da película que fiz pra edição de ontem desta Folha). O filme é absurdamente emocionante sem ser apelativo, o que não quer dizer que seja perfeito.

Os problemas começam logo nas primeiras cenas de paquera entre Stephen e Jane. O então jovem físico, ainda sem sinais da doença que acabaria com quase todos os seus movimentos, conta para a moça que está estudando cosmologia. “O que é isso?”, pergunta Jane. “Uma espécie de religião para ateus inteligentes”, responde Stephen. Cosmologia é isso mesmo, afinal? E, aliás, será que o grande objetivo de Hawking com suas pesquisas foi desprovar a existência de Deus, como o filme dá a entender em vários momentos?

Quem conhece o blog sabe que, como de costume, a resposta é complicada. Vamos a ela. Aliás, quem quiser uma explicação mais detalhada sobre o tema pode conferir o capítulo “Deus existe?” do meu novo livro, “Os 11 Maiores Mistérios do Universo”, que pode ser facilmente encontrado aqui.

Em primeiro lugar, a frase de Hawking é inegavelmente engraçadinha e talvez tivesse um fundo mais claro de verdade nos anos 1960, quando muitos físicos ainda tinham dificuldade de aceitar a expansão do Universo e preferiam um Cosmos belamente estático e imutável por motivos filosóficos. Mas a cosmologia moderna é uma ciência observacional das mais sólidas.

Conhecemos com precisão absurda, por exemplo, a radiação cósmica de fundo, o “eco” do Big Bang, a violenta expansão cósmica primordial, uma “sopa” de energia extremamente fria que permeia o tecido do espaço em todas as direções com minúsculas diferenças de um lugar para outro das galáxias. Conhecemos em detalhe o funcionamento de supernovas, buracos negros, galáxias e aglomerados galácticos. Até quando o conhecimento atual ainda é muito incompleto – falo, por exemplo da natureza da matéria escura que parece “dar um gás” na gravidade das galáxias, ou da energia escura que, ao que tudo indica, está levando à expansão acelerada do Cosmos –, as hipóteses sobre o que são esses trecos estão baseadas em observações rigorosas.

Então não, ninguém precisa de fé para “acreditar” na cosmologia moderna. Nesse ponto, ela não se parece com religião alguma.

E não, o trabalho de Hawking não teve papel nenhum em mostrar que Deus não existe – quer dizer, teve esse papel na mesma medida que Newton ameaçou deixar Deus desempregado ao desvendar a gravitação. Tudo depende do papel que filosoficamente você dá para Deus na natureza. Se Deus só é digno de seu título divino se for um interventor que faz tudo acontecer no Universo “no braço”, é claro que mostrar que a natureza funciona sozinha aposenta o coitado. Mas um Deus “sutil”, que garante as leis do Cosmos mas intervém raramente e de formas impossíveis de verificar – bem, esse aí é dificílimo de desprovar – e mais ainda de provar, claro.

Acho, no entanto, que a piada tem um fundinho de verdade. É possível detectar, ao menos no trabalho de alguns cosmólogos, como o canadense Lee Smolin, o desejo de derrubar todos os possíveis argumentos em favor da existência de Deus que venham da estrutura do Universo.

SINTONIA FINA

Um dos argumentos mais usados dessa maneira é o do chamado princípio antrópico, ou da “sintonia fina” cósmica – a constatação de que tantas variáveis do Universo parecem estar delicadamente ajustadas para produzir a vida que só um Criador inteligente teria sido capaz de fazer esse ajuste no princípio dos tempos.

De fato, no nosso Universo, variáveis como a potência exata das forças fundamentais da natureza, como a gravidade, a massa das partículas elementares e até o número de dimensões do espaço parecem ser “ajustadas” em favor da vida. (Ou, no mínimo, em favor do aparecimento de um equilíbrio delicado entre estrelas que viram supernovas e estrelas de vida longa, que acaba desembocando na vida.)

Bom, diante da improbabilidade dessa combinação de fatores, alguns cosmólogos, relutando em aceitar a ideia de que houve um projeto deliberado para o Universo, propõem a existência de infinitos universos – o nosso seria apenas uma fatia dessa variedade de possibilidades das leis da física. Aqui, por sorte, foi onde calhou de as leis cósmicas serem favoráveis à vida, e pronto. Não tem mistério se existirem inúmeros universos por aí onde nada desse tipo pode existir.

Ocorre que uma das principais hipóteses para explicar algumas das propriedades do Universo, em especial o que ocorreu logo após o Big Bang – a do chamado Universo inflacionário – tem sido cada vez mais corroborada pelas observações, e muita gente acha que o Universo inflacionário exige a existência de outros Cosmos. O porquê disso é meio complicado – mas, resumindo, a ideia é que a expansão desenfreada original do Universo, a tal inflação, precisaria ter sido tão violenta em seus micromomentos iniciais que inevitavelmente algumas regiões do Cosmos-bebê se distanciaram demais umas das outras – tanto que, para todos os efeitos, viraram Universos separados. E esses locais tão distantes de nós poderiam ter outras leis da física, nada amigáveis à vida, enquanto por aqui tivemos a sorte de contar com uma “Constituição” cósmica pró-vida. Tentar mostrar que foi isso mesmo que ocorreu exige medições cada vez mais minuciosas da estrutura cósmica e dos efeitos da gravidade nas maiores escalas do Universo, mas dá pra buscar esse objetivo, em tese.

Desnecessário dizer que nem isso, do ponto de vista lógico/filosófico, exclui Deus – ele poderia ser visto como o desencadeador da expansão, por exemplo. Mas decerto faz balançar a ideia de que ele foi o Grande Projetista Cósmico que pensou, em detalhes, como o Universo seria, antes do princípio dos tempos.

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