Como as mãos evoluíram?

Por Reinaldo José Lopes
Comparação entre mão de chimpanzé e de humano. Não vou dizer qual é qual pra não insultar a sua inteligência, né? (Crédito: Reprodução)
Comparação entre mão de chimpanzé e de humano. Não vou dizer qual é qual pra não insultar a sua inteligência, né? (Crédito: Reprodução)

Dizer que gente tem mãos e bicho tem patas da frente é uma injustiça, no mínimo quando o assunto são os grandes macacos. Basta olhar as mãos — pois é, mãos — de um chimpanzé para conferir isso. No entanto, não deixa de ser verdade que a mão humana tem algo de especial, como você pode ver nessa comparação entre nós e os chimpas à esquerda. Acabam de surgir novas evidências de que a nossa capacidade de manusear e produzir ferramentas com as mãos emergiu há pelo menos 3 milhões de anos, como conto nesta reportagem na edição impressa da Folha. Os dados-chave se referem ao nosso especialíssimo polegar, capaz tanto de tarefas de precisão quanto de força em conjunção com os demais dedos.

Mas como o uso de ferramentas teria influenciado a evolução das mãos? Ou será que primeiro veio a habilidade e depois o hábito de usar instrumentos de pedra? Fiz essa pergunta ao antropólogo Matthew Skinner, da Universidade de Kent (Reino Unido), autor da pesquisa. A resposta é bem interessante e, pra variar, complexa. Diga lá, Matt!

“Bem, eu diria que é um pouco o caso do ovo e da galinha. Tradicionalmente a ideia é que a mão humana evoluiu num ancestral que provavelmente tinha dedos longos e um polegar relativamente curto, já que os grandes macacos atuais têm mãos desse tipo que são vantajosas para escalar e ficar suspenso de árvores.

Conforme os hominídeos fósseis evoluíram a postura bípede, passando menos tempo nas árvores, haveria um relaxamento da seleção para dedos longos. Ou outra hipótese sugere que, conforme nossos pés se adaptaram ao bipedalismo, conforme nossos dedos dos pés ficaram mais curtos, os dedos das mãos também encurtaram simplesmente como subproduto desse processo, a chamada pleiotropia genética [quando um gene controla vários traços relacionados do organismo ao mesmo tempo].

De qualquer forma, se os dedos dos primeiros hominídeos fósseis ficaram mais curtos, o polegar ficou mais longo de modo natural, em termos relativos, e essas novas proporções da mão facilitariam a oposição entre o polegar e os demais dedos (ou seja, o movimento de pinça de precisão). Esse pequeno aumento de destreza manual poderia abrir novas oportunidades, como o acesso a novas fontes de alimento, as quais levariam, no fim das contas, a uma vantagem seletiva forte, incentivando ainda mais o uso do polegar.

Isso encorajaria novas características anatômicas (mais redução no comprimento dos dedos, alongamento do polegar, musculatura do polegar fortalecida etc.) que aumentaria a destreza, e assim por diante, em última instância levando a capacidades muito complexas de uso e produção de instrumentos.

Entretanto, é importante notar que ainda não sabemos como era a mão do último ancestral comum de chimpanzés e humanos, ou seja, como era a condição ancestral, e também precisamos lembrar que muitos primatas, como chimpanzés, macacos-prego e macacos resos, são usuários contumazes de ferramentas, ainda que lhes faltem muitas das características que encontramos em mãos de humanos atuais ou de hominídeos fósseis.”

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