Xô, Lamarck!

Por Reinaldo José Lopes
Lamarck: tá bonito na foto, mas não tão bem quando o assunto é evolução (Crédito: Reprodução)
Lamarck: tá bonito na foto, mas não tão bem quando o assunto é evolução (Crédito: Reprodução)

O post mais recente do blog, sobre a evolução da mão humana, rendeu uma pequena polêmica. Recebi um e-mail do simpático leitor Miguel Falcão perguntando o seguinte: as frases abaixo, ditas pelo antropólogo Matthew Skinner, não seriam lamarckistas?

“De qualquer forma, se os dedos dos primeiros hominídeos fósseis ficaram mais curtos, o polegar ficou mais longo de modo natural, em termos relativos, e essas novas proporções da mão facilitariam a oposição entre o polegar e os demais dedos (ou seja, o movimento de pinça de precisão). Esse pequeno aumento de destreza manual poderia abrir novas oportunidades, como o acesso a novas fontes de alimento, as quais levariam, no fim das contas, a uma vantagem seletiva forte, incentivando ainda mais o uso do polegar.”

Para quem não sabe, o lamarckismo é a ideia às vezes resumida com a frase “uso e desuso”, segundo o qual o esforço direto de um ser vivo — a girafa esticando o pescoço para pegar uma folha lá no alto da árvore, por exemplo — altera não só os órgãos desse indivíduo mas também as características que ele passará para seus descendentes. Essa ideia empresta seu nome de Jean-Baptiste Pierre Antoine de Monet, cavaleiro de Lamarck (1744-1829), naturalista francês. Meio injusto, na verdade, porque se trata de uma crença muito comum entre os naturalistas dos séculos 18 e 19 — o próprio Darwin era “lamarckista”, como a gente pode ler em seu clássico “A Origem das Espécies”.

É OU NÃO É?

Enfim, vamos ao que interessa: o raciocínio de Skinner é lamarckista ou não?

A resposta é negativa. A questão é que a maneira como a linguagem humana funciona trai um pouco a gente. Pra seres como nós é difícil expressar acontecimentos sem usar metáforas de “agência”, ou seja, de alguém ou algo agindo de maneira propositada. É o problema da palavra “incentivando” lá em cima. Mas o que evita maiores confusões é uma expressão-chave que, por sorte, também está presente na fala de Skinner: “vantagem seletiva”. Ou seja, seleção natural em ação.

Recordemos, dileto leitor, os pontos-chave da seleção natural: 1)existe variação natural de características em qualquer população de seres vivos; 2)ao menos parte dessa variação é herdada, ou seja, transmitida geneticamente de pais para filhos; 3)algumas dessas variantes ajudam os seres vivos a sobreviver e, principalmente, reproduzir-se com mais eficiência do que outras.

É só isso o que a frase do antropólogo quer dizer. Alguns hominídeos tinham destreza manual ligeiramente superior à dos demais, graças a variações pequenas na estrutura dos dedos que tinham raízes genéticas. Essas variações permitiram que as criaturas tivessem mais sucesso reprodutivo e, na geração seguinte, ficaram mais frequentes na população — e assim por diante.

Portanto: vade retro, Lamarck! Sai deste hominídeo que não te pertence!

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