Update rápido sobre a história israelita

Por Reinaldo José Lopes
Capa do livro "Uma História Cultural de Israel" (Crédito: Reprodução)
Capa do livro “Uma História Cultural de Israel” (Crédito: Reprodução)

Já faz um tempo que terminei a leitura de “Uma História Cultural de Israel” (editora Paulus), de autoria de Júlio Paulo Tavares Zabatiero, que fez seu doutorado na Escola Superior de Teologia (RS). O livro é relativamente curto, mas um bocado denso, tanto na quantidade de informações quanto na abordagem metodológica rigorosa. Para os propósitos do blog, não acho que é o caso de entrar no mérito dessas questões historiográficas mais complexas. Mas é muito interessante notar como o livro reflete o que podemos chamar de um novo consenso emergente sobre a história do antigo Israel.

Eis alguns pontos desse consenso que estão refletidos no livro, os quais inevitavelmente contrariam a ideia de que o Antigo Testamento é um relato histórico 100% confiável sobre as origens israelitas:

1)Está cada vez mais difícil defender que o povo de Israel surgiu quando um grande grupo de ex-escravos deixou o Egito e invadiu militarmente a Palestina. Os dados arqueológicos apontam fortemente para uma origem de Israel dentro do território palestino, de forma pacífica e gradual. Ou seja, na prática, os primeiros israelitas não passavam de um subgrupo dos cananeus, habitantes originais da terra de Canaã (a Palestina);

2)Também faz cada vez menos sentido imaginar que as tribos israelitas inicialmente formaram um grande Estado monárquico, governando por David e seu filho Salomão, que depois teria se fragmentado em dois reinos rivais (Israel, no norte, e Judá, no sul). A questão é que a capital do sul, Jerusalém, que também teria sido a capital da monarquia unida israelita, durante séculos parece ter sido pouco mais que um vilarejo. Além disso, a região de Judá, em termos de população e riqueza, nunca se comparou ao que havia no norte. O mais provável, portanto, é que os dois reinos tenham surgido separadamente e se mantido como entidades políticas separadas até seu desaparecimento, quando foram conquistados pelos assírios e pelos babilônios, respectivamente.

3)O monoteísmo israelita — ou seja, a crença num Deus único — é um fenômeno relativamente tardio. Por conta de sua origem cananeia, o povo de Israel, em sua maioria, não via problemas em conciliar a adoração a Iahweh (Javé ou “o Senhor”) com a crença em outros deuses, como Baal. Foi a partir do século 8º a.C., com a atuação dos profetas, que a adoração exclusiva a Iahweh começou a ganhar ímpeto, e o monoteísmo propriamente dito só se consolida de vez no fim do século 6º a.C., após o exílio da elite de Judá na Babilônia.

É preciso, portanto, diferenciar entre a narrativa bíblica, que tem propósitos basicamente teológicos e de construção da identidade social, e a narrativa histórica que tenta simplesmente reconstruir os fatos que aconteceram há mais de 2.000 anos. São duas coisas bem diferentes.

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