Múmias antes dos egípcios

Por Reinaldo José Lopes

Se você achava que esse negócio de múmia é invenção dos egípcios, é porque nunca ouviu falar dos chinchorros, meu filho. Os membros dessa tradição cultural, que viveram na costa norte do Chile e na costa sul do Peru, à beira do oceano Pacífico, são os responsáveis pela mais antiga tradição de mumificação do planeta, que surgiu lá se vão 7.000 anos e durou nada menos do que quatro milênios.

Exemplar de uma das Múmias Negras dos chinchorros (Crédito: Creative Commons)
Exemplar de uma das Múmias Negras dos chinchorros (Crédito: Creative Commons)

Graças ao trabalho de pesquisadores como o bioarqueólogo chileno Bernardo Arriaza, hoje sabemos com requinte de detalhes como os chinchorros preparavam seus mortos para a jornada rumo ao Além-Túmulo. Diferentemente do que acontecia no caso egípcio, o objetivo desse povo não era propriamente preservar a imagem do morto de maneira idêntica à sua cara em vida, mas sim fazer uma verdadeira reconstrução ou transfiguração do falecido.

A técnica mais complexa empregada por essa população pré-colombiana era a das chamadas Múmias Negras — a foto acima é um exemplo da prática. Primeiro passo: enterrar o corpo num pântano e esperar que a carne apodrecesse. Depois, os ossos eram desenterrados, limpos e remontados, com a ajuda de cordas e uma armação de madeira. Cobria-se então esse corpo refeito com argila cinzenta, recriando as feições e até a genitália da pessoa. Às vezes, os mumificadores tinham a pachorra de retirar a pele do rosto antes da decomposição e depois “colar” essa pele no crânio de novo. Passo final: a argila é recoberta com uma pasta cinza-azulada de manganês.

Igualmente interessantes eram as Múmias Vermelhas. No caso delas, os órgãos e os músculos do morto eram retirados por meio de incisões feitas nos joelhos, tornozelos, ombros e virilha. O próximo passo era extrair o próprio crânio. Depois de “esvaziar” a carcaça do defunto dessa maneira, a cavidade corporal era secada com brasas, e os mumificadores enfiavam varas dentro da pele, de novo para formar uma estrutura de suporte. Esse conjunto recebia então um “recheio” de penas de aves marinhas, terra e pelos de guanaco (um parente selvagem das lhamas). O crânio ganhava uma peruca que ia até a altura dos ombros, feita com cabelo humano e colada à cabeça com a já tradicional pasta de manganês. O passo final era recolocar o crânio no resto do corpo e pintar o conjunto (com exceção do rosto e da peruca) com pigmento ocre.

É lógico que é impossível saber o que se passava pela cabeça dos chinchorros quando criavam essas imagens assombrosas de seus mortos, já que eles não deixaram relatos escritos. Mas é difícil não pensar que tamanha intimidade com os mortos mexia com inúmeros aspectos dessa cultura desaparecida.

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