Teleologia promíscua

Por Reinaldo José Lopes

Peço as mais abjetas desculpas aos diletos leitores pelo sumiço nas últimas semanas — estava correndo para concluir meu novo livro, “Deus: Como Ele Nasceu”. Aproveito, aliás, para dar mais uma palhinha do dito cujo por aqui (ainda não temos data de lançamento, mas aviso assim que souber). O tema de um dos capítulos é o seguinte: será que os seres humanos têm um viés cognitivo naturalmente favorável à crença em Deus ou em deuses? É isso o que sugere a chamada teleologia promíscua detectada em crianças. Entenda melhor esse palavrão abaixo.

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A tendência a enxergar propósito e intenção no mundo ao nosso redor parece ser muito forte entre crianças. Elas fazem isso com tamanho empenho que os psicólogos resolveram até inventar um termo técnico só para designar o fenômeno: teleologia promíscua. A primeira palavra, de origem grega, poderia ser aportuguesada para “finalidade”, enquanto “promíscuo” aqui não tem nada a ver com sexo, mas sim serve para ressaltar o fato de que a criançada enxerga finalidade em quase todas as situações – ou seja, tende a achar que as coisas que existem no mundo foram criadas (o uso da palavra é intencional, claro) para alguma coisa.

Essa tendência foi constatada em diversos experimentos, realizados nos EUA, no Reino Unido e em outros países por mais de um grupo de pesquisadores, envolvendo crianças com idades entre os quatro e os oito anos de idade. Nesses casos, as várias pesquisas aplicavam combinações de questionários “abertos” e “fechados” (ou seja, nos quais as crianças podiam responder como quisessem ou tinham de escolher entre uma série de opções, respectivamente – o formato não é muito diferente de uma pesquisa de intenção de voto no período de eleições). Em geral, os psicólogos perguntavam à criançada por que certas coisas existiam – num espectro que vai de eventos naturais, como tempestades, passando por objetos naturais, como montanhas ou rios, e chegando a seres vivos, em especial animais (os quais, como sabe qualquer pessoa que tenha algum contato regular com crianças pequenas, são vistos com extremo interesse pela maioria delas).

O resultado é que, na maioria dos casos, as crianças se saíam com explicações teleológicas – ligadas a propósito e finalidade. Exemplo típico: em vez de dizer que certas rochas são pontudas porque elas se formaram de um jeito que levou a esse formato, as crianças tendiam a criar hipóteses como “elas são pontudas para evitar que os animais se sentem nelas e as esmaguem”. (Mas a mais bonitinha, eu acho, é a explicação sobre a existência das montanhas: “Porque quando a Terra surgiu havia muitos terremotos e aí eles resolveram colocar as montanhas como se fossem pesinhos de papel no chão, aí os terremotos diminuíram”.)

As pesquisas foram além disso, porém. Quando as crianças tinham a oportunidade de responder se esses vários elementos do mundo ao nosso redor tinham sido criados de propósito por alguma coisa ou alguém ou simplesmente surgiram por processos naturais, a ideia da criação deliberada era a preferida por pelo menos metade dos meninos e das meninas no caso de objetos como rios e montanhas, e por dois terços das crianças quando a pergunta se referia a animais.

(Se vocês me permitem uma anedota pessoal quase tão bonitinha quanto a das montanhas-que-são-pesos-de-papel, recordo que meu filho, hoje com 5 anos, teve uma reação muito engraçada aos 3 anos e pouco de vida, ao se deparar com uma folha de árvore caída na frente de casa. A folhinha ainda estava parcialmente verde, mas outros pedaços dela tinham colorações que iam do pardo ao esbranquiçado. Ele pegou a folha e soltou, com aquela dificuldade fofa de pronunciar o “lh” e o “r”: “Uma fola cololida! Quem pintô?”. Juro que ele nunca tinha sido voluntário em laboratórios de psicologia.)

Para completar esse quadro, quando as crianças eram instadas a responder quem tinha criado as coisas que existem no mundo, a tendência era escolher alguma variante do cenário “Deus as criou” – e, de novo, a frequência com que essa era resposta é usada cresce muito quando a “criação” examinada é um animal. Não é preciso quebrar muito a cabeça, porém, para ver que temos um possível problema de interpretação aí. Afinal, em muitos lugares do mundo, as crianças são rotineiramente ensinadas por seus pais, e até pela escola que frequentam, a acreditar justamente no papel de Deus como criador. Não seria forçar a barra registrar essas respostas e sair dizendo que a posição “natural” da criançada é essa?

Nesse caso, há um certo problema de controle na amostra, até porque, na maioria dos casos, é difícil achar um grupo de crianças que nunca tenha sido exposto à ideia de um deus criador no Ocidente. Até países onde hoje parece haver uma maioria de ateus, como os da Escandinávia, a influência cultural religiosa ainda é considerável. De qualquer modo, alguns dos estudos, realizados nos EUA, controlaram em parte esse probleminha metodológico ao “recrutar” crianças de dois grandes grupos: fundamentalistas e não fundamentalistas. No contexto americano, o primeiro grupo corresponde a meninos e meninas criados por pais que defendem a verdade literal dos textos bíblicos (uma criação do mundo em apenas sete dias, conforme narra o livro do Gênesis, por exemplo). Já o segundo inclui tanto as crianças de famílias que aceitam uma interpretação teológica mais livre dos textos sagrados quanto as criadas por pais não religiosos. O mais interessante, porém, é que nesses casos os pesquisadores aplicaram as mesmas perguntas aos pais da meninada, o que ajuda, em tese, a ter uma ideia do que tinha sido ensinado a elas. O resultado foi curiosíssimo: nos casos em que os pais escolhiam respostas “cientificamente corretas” (por exemplo, tal e tal animal surgiu por meio de um lento processo de seleção natural, em vez de ter sido criado diretamente por Deus), os filhos deles acabavam escolhendo com mais frequência a criação divina como explicação.

Isso pode ser um indício de que, de fato, para as crianças, a explicação “criacionista” é mesmo a mais intuitiva, a que mais apela para os nossos instintos mentais mais arraigados, independentemente do tipo de educação (ou doutrinação, se você quiser ver o lado negro da coisa) que elas receberam. Isso ajudaria a explicar por que é tão difícil ensinar com eficácia a teoria da evolução, apesar das incontáveis evidências em favor dela: trata-se de uma batalha na qual os criacionistas já saem ganhando de goleada.

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