Thor, Odin e cia. no Brasil

Por Reinaldo José Lopes

É difícil achar alguma mitologia do planeta que possa ser considerada sem-graça — eu, pelo menos, não achei nenhuma até hoje –, mas o conjunto de mitos dos povos da Escandinávia muito provavelmente está no ranking das top 5 da maioria das pessoas que se interessam por mitologia, e com razão. Não é à toa que as artes plásticas, a música clássica e, hoje em dia, a cultura pop (que o diga o sucesso dos filmes dos Vingadores e do Thor) vivem minerando essa fonte praticamente inexaurível de histórias legais. Por enquanto, infelizmente, ainda há pouquíssimo material de qualidade em português para quem deseja se aprofundar no conhecimento das crenças da Escandinávia pré-cristã. Ou melhor, havia: um timaço de pesquisadores nacionais e estrangeiros produziu e lançou recentemente o “Dicionário de Mitologia Nórdica: Símbolos, Mitos e Ritos”, cujas sensacionais capa e contracapa você pode conferir na imagem abaixo.

"Dicionário de Mitologia Nórdica": coisa fina. E não é porque eu participei não. (Crédito: Reprodução)
“Dicionário de Mitologia Nórdica”: coisa fina. E não é só porque eu participei, não. (Crédito: Reprodução)

 

O trabalho contou com a organização do historiador Johnni Langer, da Universidade Federal da Paraíba, e tem escopo ambicioso, com 580 páginas de informação e exemplares da iconografia escandinava medieval (e também de obras de arte que se inspiraram nas aventuras de Thor, Odin e companhia).

Dizem que louvor em boca própria é vitupério (ou ao menos assim dizia Monteiro Lobato), então vamos ao momento transparência: escrevi um dos verbetes do dicionário, o que versa sobre as influências da mitologia nórdica sobre a obra de J.R.R. Tolkien, autor de “O Senhor dos Anéis” (fiz mestrado e doutorado sobre a obra de Tolkien, para quem não sabe). Como aperitivo, aqui vai o meu verbete, que na verdade é uma parte ínfima desse trabalho monumental. Espero que gostem!

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J.R.R. TOLKIEN E OS MITOS ESCANDINAVOS

John Ronald Reuel Tolkien (1892-1973), filólogo da Universidade de Oxford mais conhecido por sua obra de ficção como autor de O Senhor dos Anéis e O Hobbit, passou toda a sua vida profissional estudando as línguas, a literatura e a mitologia da Europa setentrional durante a Idade Média. Embora, segundo ele próprio, seus interesses filológicos tenham sido despertados, ainda durante a infância, pela visão do que, de seu ponto de vista de menino, eram enigmáticas placas com frases em galês durante viagens de trem, o fato é que a cultura céltica ocupa apenas um importante segundo lugar na construção do universo ficcional tolkieniano. Mais crucial ainda é a influência dos mais antigos monumentos literários escritos em línguas germânicas: a tradução da Bíblia para o gótico, Beowulf e os demais poemas em inglês antigo (ou anglo-saxão), a poesia épica em antigo alto-alemão e, claro, as sagas e os poemas escandinavos.

É provável que a melhor maneira de entender essas influências seja considerar o papel que desempenham dentro do projeto de Tolkien de (re-)criar uma “mitologia para a Inglaterra”. De maneira apenas parcialmente jocosa, Tolkien costumava protestar contra a conquista de seu país natal pelos normandos em 1066, em especial pelo efeito devastador que esse evento teve sobre a língua e a literatura “original” dos ingleses, substituindo-a por modelos culturais do Continente, basicamente franceses. Para Tolkien, textos como Beowulf (o qual, embora tenha sido escrito por um inglês anônimo, tem como personagens príncipes das atuais Suécia e Dinamarca) davam apoio à ideia de que a Inglaterra saxã fazia parte de uma antiga koiné (comunidade cultural) germânica que compartilhava os mesmos modelos básicos em formas fixas poéticas, mitologia e lendas heroicas. Nada mais natural, portanto, do que usar o tesouro dos textos medievais escandinavos (os quais, em matéria mitológica, são bem mais detalhados do que qualquer obra que tenha sobrevivido ao período anglo-saxão) para levar a cabo esse projeto de uma mitologia genuinamente inglesa.

Quando se observa como esse plano foi colocado em prática, é preciso ter em conta, mais uma vez, que Tolkien continuava a trabalhar como filólogo mesmo quando escrevia ficção. Vale dizer, sua tendência era começar com palavras isoladas, pequenos fragmentos de tradição e sentido, tentando resolver seus enigmas e contradições para, a partir daí, chegar a histórias.

Um exemplo crucial é o que ele provavelmente via como a inconsistência da nomenclatura de seres como elfos e anões em nórdico antigo, que colocava de um lado os ljósálfar (“elfos da luz”) e, de outro, os dökkálfar ou svartálfar (“elfos das trevas” ou “elfos negros”), esses últimos confusamente identificados com os dvergar (“anões”). As narrativas etiológicas de O Silmarillion, obra na qual Tolkien trabalhou durante toda a sua vida, publicada apenas postumamente em 1977, “resolvem” a confusão ao criar histórias separadas para “elfos da luz” e “elfos das trevas” (os primeiros partem para a terra divina de Valinor, iluminada pela luz das Árvores primordiais, enquanto os últimos ficam na Terra-média) e explicar que os anões eram criaturas totalmente diferentes, com os quais os elfos das trevas às vezes comerciavam (daí, presume-se, a associação espúria entre as duas raças).

Transposições semelhantes podem ser constatadas numa escala maior quando se consideram motivos literários, detalhes da ambientação e da personalidade de protagonistas e coadjuvantes do universo tolkieniano. Para voltar ao caso dos anões, a associação dos dvergar com o mundo subterrâneo, com as riquezas desse mundo e com um gosto refinado pela vingança colorem tanto as interações de Loki com Andvari no mito nórdico quanto as atitudes de Thorin Escudo de Carvalho e companhia em O Hobbit. (Os nomes do príncipe anão e seus companheiros, aliás, foram quase todos retirados diretamente do Dvergatal, a “lista dos anões” que integra o poema Völuspá.)

Ainda em O Hobbit, o estratagema de manter o cômico trio de trolls canibais acordado até que o sol nasça e os transforme em pedra é praticamente idêntico ao adotado por Thórr no Alvíssmál, do Edda Antigo, embora na versão escandinava da história a vítima do logro seja o anão Alvíss, e não um troll. Falando no Deus do Cadafalso nórdico, aspectos de seus poderes e “identidade visual” foram incorporados, de um lado, pelo mago Gandalf (em especial o cajado e o chapéu de abas largas) e, de outro, por Manwë, Senhor dos Valar, os “poderes angélicos” que governam a Terra em nome do Criador no universo de Tolkien (entre os elementos “odínicos” de Manwë estão sua visão penetrante quando ele se posta no alto de sua montanha-trono e seus mensageiros em forma de aves de rapina). Finalmente, outro motivo tradicional da lenda heroica germânica – o da “barriga mole” do dragão, que pode ser furada por um guerreiro estrategicamente posicionado debaixo do monstro – aparece nas histórias de Bard em O Hobbit e de Túrin Turambar em O Silmarillion, este último comparado explicitamente a Tolkien ao Sigurd escandinavo (e ao Kullervo finlandês).

Por fim, talvez o paralelo mais importante entre a obra de Tolkien e o universo mitológico escandinavo seja o que autor definia como a “teoria da coragem do Norte” – para ele, outro elemento-chave da koiné cultural germânica na Alta Idade Média. Segundo Tolkien, a “teoria da coragem do Norte” derivava diretamente da crença pagã de que tanto homens quanto deuses estavam irremediavelmente destinados à derrota no Ragnarök – mas que, apesar dessa sentença de morte, eles continuavam dispostos a lutar contra as forças do caos. Nas palavras do autor em seu ensaio Beowulf: The Monsters and the Critics (“Beowulf: Os Monstros e os Críticos”): “Nessa guerra [a dos deuses contra as forças do caos], os homens são seus aliados escolhidos, capazes, quando heroicos, de partilhar dessa resistência absoluta, perfeita porque sem esperança”.

Os heróis de Tolkien sempre partilham dessa credo da coragem misturada ao desespero, de Túrin e Fëanor em O Silmarillion até a disposição de Frodo e Sam de sacrificar tudo para destruir o Anel em O Senhor dos Anéis.

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