Comida de micróbio marciano

Por Reinaldo José Lopes

A esta altura do campeonato, você só não ficou sabendo ainda da possível descoberta de água corrente sazonal em Marte se… bem, se você literalmente mora em Marte e não possui ao menos um radinho de pilha. (Para mais informações qualificadíssimas sobre o achado da Nasa, faça um favor a si mesmo e visite o blog Mensageiro Sideral, do meu amigo e colega Salvador Nogueira.) Neste breve post, vou me arriscar na seara do Salvador para tentar abordar a biologia e a bioquímica — especulativas ainda, claro — da coisa.

Ocorre que as supostas “águas de Marte”, ao que tudo indica, possuem alta concentração de sais conhecidos pelos singelos nomes de perclorato de sódio e perclorato de magnésio, entre outros. Desempacotando um pouco a nomenclatura: “perclorato” nada mais é que o nome dado à parte eletricamente negativa desses sais, que contém um átomo do elemento químico cloro (daí o nome) e quatro átomos de oxigênio. Esse treco é tóxico para seres humanos, podendo causar problemas de tireoide ou mesmo de pressão alta, segundo alguns estudos. Sinal vermelho para a suposta vida marciana, portanto?

Não se estivermos falando de bactérias e outros micróbios, como as misteriosas Archaea. Existem mais de 40 linhagens diferentes de micro-organismos que “comem” perclorato, ou seja, conseguem usá-lo em seu metabolismo.

Em geral, isso é feito graças a enzimas especiais, ou seja, moléculas que aceleram reações químicas no organismo dos micróbios, ajudando-os a “quebrar” moléculas complexas em pedaços menores. As tais enzimas, a perclorato-redutase e a clorito-dismutase, servem para fatiar esses sais, liberando os átomos de cloro e, veja você, o gás oxigênio, aquele mesmo que respiramos. Além da fotossíntese, realizada pelas plantas e por outros micróbios, o “desmanche” dos percloratos é um dos poucos processos biológicos que produzem oxigênio.

Fica aí, portanto, a dica para futuras missões da Nasa (é óbvio que eles já devem saber disso por lá): talvez farejar pequeninas quantidades de oxigênio perto dos “ribeirões” de Marte seja um caminho para detectar vida microbiana comendo percloratos por lá.

ADENDO RÁPIDO: A Nasa tem afirmado que as concentrações salinas dos riachos temporários marcianos são tão altas que nenhum micróbio terrestre aguentaria o tranco. Pode ser, mas e um micróbio nascido e criado em Marte?

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