Balanço sinodal

Por Reinaldo José Lopes

Após três semanas de discussão intensa e às vezes um tanto azeda, terminou a segunda parte do sínodo da Igreja Católica sobre a família, uma reunião com centenas de bispos do mundo todo que deu continuidade à discussão similar que se deu no ano passado. O sínodo debateu inúmeros aspectos de como passar a mensagem cristã às famílias num mundo em contínua mutação, mas um dos temas mais polêmicos foi a possibilidade de oferecer o sacramento da Eucaristia (comunhão) a católicos que se divorciaram e se uniram a um(a) segundo(a) parceiro(a) — hoje, essas pessoas não podem receber a comunhão.

Não houve mudança nessa prática no documento final do sínodo, embora os bispos reunidos tenham reiterado a necessidade de acolhida a esses fiéis. Recebi do pessoal do projeto Comunicação Aberta, do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP, um interessante comentário sobre os debates sinodais da parte de um participante direto, Dom João Carlos Petrini, bispo de Camaçari (BA). Reproduzo a íntegra a análise dele, escrita, é bom lembrar, antes do fim oficial dos trabalhos no último domingo. Confiram.

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FAZER FAMÍLIA HOJE: UMA HIPÓTESE A SER CONSIDERADA
Dom João Carlos Petrini
Bispo de Camaçari
Padre Sinodal

O Sínodo dos bispos que tem como tema: “A vocação e a missão da família na Igreja e no mundo contemporâneo” está chegando ao fim. No sábado pela manhã é dada leitura da relação, fruto do trabalho feito pela assembleia geral e pelos treze círculos menores sobre o Instrumentum Laboris, preparado pelo Vaticano a partir da relação final do Sínodo Extraordinário de 2014 e dos aportes vindos das dioceses do mundo inteiro. Na parte da tarde, é votado parágrafo por parágrafo. Um sistema eletrônico com terminal em cada cadeira permite a cada padre sinodal expressar seu voto rapidamente. O voto será: placet ou non placet [aceito ou rejeitado]. E no domingo de manhã, missa em São Pedro com o Papa Francisco para o encerramento oficial.

As três semanas de trabalho intenso foram caracterizadas pelo clima fraterno que é típico entre bispos. Isto não impediu a pessoas e a grupos defenderem posições muito diferentes. Os observadores de fora ficam atentos e, às vezes, interpretam cada movimento como uma espécie de guerra santa. Assim, a carta dos treze cardeais foi considerada uma conspiração. Na realidade, nada mais natural que pessoas experientes manifestem diretamente ao Papa sua preocupação de que algum grupo possa pilotar o Sínodo conduzindo-o a uma meta pré-definida, sem respeitar o caminho próprio do Sínodo (lembro que a palavra Sínodo significa caminhar juntos) e sem valorizar os diversos aportes de cada padre sinodal.

Essa carta foi publicada. Como aconteceu? Quem a fez circular? É interessante acompanhar cada passo, procurando compreender o que realmente está acontecendo. Alguém pensou que a publicação da carta ia repercutir de maneira interessante. Mas não são essas questões que realmente interessam.

Na realidade, há um grande consenso entre os padres sinodais: todos, com raras exceções, concordam com a necessidade de dar uma atenção renovada à família. Todos entendem que, durante muito tempo, a pregação da Igreja se concentrou na apresentação das regras, das normas canônicas, dos deveres e dos compromissos dos cônjuges. Faltava uma atenção para apresentar aos jovens que casam a beleza do amor, a grandeza da maternidade e da paternidade, a alegria de gerar vidas novas e a felicidade de acompanha-las em seu crescimento, a satisfação de partilhar alegrias e durezas, esperanças e projetos, saúde e doenças, a confiança que a presença de Jesus Cristo dá para não desanimar nas dificuldades, para ter um adicional de sabedoria e de força interior para recomeçar sempre que se faz necessário, contando com a graça do sacramento.

Todos os padres sinodais compartilham a percepção de que é necessário acolher os que em suas tentativas de viver o amor dão passos em falso e acabam sofrendo e fazendo sofrer. Esta é, provavelmente, a novidade maior: uma sensibilidade que não mais condena ou afasta quem errou, mas ao contrário, uma postura que acolhe com ternura, com misericórdia, procurando ajudar para superar dificuldades, curar feridas, amenizar os sofrimentos. E isto tem consequências concretas na organização da pastoral, na maneira como bispos e padres e agentes de pastoral desenvolvem suas atividades.

Onde, então, está o conflito?

Um grupo está disposto a percorrer um longo caminho para responder a esses desafios, entendendo que, assim como muitas coisas da tradição cristã hoje são abandonadas porque não correspondem aos tempos atuais, de maneira semelhante, poderiam ser abandonados aspectos da doutrina que parecem incompreensíveis para a mentalidade moderna, pesados e impossíveis de serem observados no contexto da sociedade contemporânea.

Outro grupo fica com o receio de desvirtuar a identidade cristã, como alguém que mistura água ao vinho: este perde o sabor e ninguém quer beber. Não se trata de receios de “conservadores”. Algumas Igrejas protestantes assumiram, nos últimos anos, na Europa e nos Estados Unidos posturas liberais e realizaram inovações próprias do mundo secularizado, mas nem por isso elas se tornaram mais significativas para as pessoas e para as sociedades onde estão inseridas. Pelo contrário, parecem mergulhar em situações de verdadeiro colapso.

No final, prevalece a posição que procura atender às exigências da grande maioria dos padres sinodais, que não perde o significado teológico mais importante do matrimônio e da família, na fidelidade ao Evangelho de Jesus Cristo e, ao mesmo tempo, inova na prática pastoral de acolhimento, valorizando o novo rosto da Igreja que é a misericórdia.

Parece um jogo político, com acordos, compromissos e jogos de poder, mas um observador menos superficial percebe que tem um ponto de referência que não cabe no horizonte político, um amor à Igreja e ao povo que é muito maior do que o prazer de ganhar sobre seus adversários. Aí está uma chave de leitura que ajuda a compreender a relação final do Sínodo.

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