Já matou Deus hoje, senhor Darwin?

Por Reinaldo José Lopes
Tá, a cena com a orangotango Jenny é fofa.  (Crédito: Reprodução)
Tá, a cena com a orangotango Jenny é fofa. (Crédito: Reprodução)

Não sei quanto a vocês, mas eu não aguento mais essa conversinha mole de “Darwin, o homem que matou Deus”.

Explico: é lógico que qualquer um tem o direito de achar que a teoria da evolução, se aceita como factualmente correta, destrói as bases da crença em Deus. Beleza, cada um é cada um. O problema é quando esse mantra acaba distorcendo a visão que temos sobre o personagem histórico Charles Robert Darwin (1809-1882), ou sobre como a teoria da evolução se desenvolveu científica e historicamente.

Aí, negão, o bicho pega. E foi isso que quase estragou minha apreciação da mais recente cinebiografia do naturalista britânico, batizada de “Criação” e lançada em 2009. Com muito atraso, finalmente assisti ao treco e posso dizer que poucas vezes na vida vi um filme com tamanha dupla personalidade: um trabalho excelente na hora de retratar os dramas humanos e as relações entre os personagens (Paul Bettany, no papel de Darwin, é maravilhoso, só pra variar), combinado a uma montanha de distorções quando o assunto é o registro histórico.

Ponto por ponto, eis a listona de problemas do filme.

1)“O senhor matou Deus!”

Essa é a frase de maior impacto do filme, pronunciada pelo futuro “buldogue de Darwin”, Thomas Henry Huxley (interpretado por Toby Jones), para sintetizar o impacto da teoria darwinista.

OK, só que Huxley nunca disse nada do tipo. Aliás, embora fosse agnóstico e gostasse de humilhar bispos anglicanos em debates públicos, Huxley na verdade acreditava que religião e ciência não precisavam estar em conflito e podiam muito bem conviver na boa.

Aliás, toda a angústia de Darwin achando que, socorro, se ele publicasse “A Origem das Espécies” a base da ordem social, que dependia da religião, iria para o saco é simplesmente inventada. Darwin se preocupava com o impacto da divulgação de suas ideias, mas nem de longe as achava tão revolucionárias e corrosivas assim.

2)A mulher de Darwin originalmente era contra a publicação de “A Origem das Espécies”

Hmmm, não. O filme tem uma cena dramática na qual Darwin pede que sua esposa, Emma, decida se o manuscrito de seu clássico deveria ser destruído ou publicado. Ela era a religiosa mais tradicional do casal, uma fervorosa unitarista (grupo cristão que não aceita a Santíssima Trindade). Essa parte do unitarismo é verdade, mas Emma já tinha lido – e inclusive comentado nas margens – um rascunho da “Origem” uns 15 anos antes da publicação do livro e, até onde sabemos, nunca se opôs à divulgação das ideias do maridão, embora tivesse discussões – amistosas – sobre religião com ele de vez em quando.

3)Darwin e o pároco anglicano de sua região quebraram o pau por causa da teoria da evolução

Thomas Henry Huxley retratado numa pegada "Meu nome é Trabalho, sobrenome Hora Extra"
Thomas Henry Huxley retratado numa pegada “Meu nome é Trabalho, sobrenome Hora Extra”

De novo, não rolou. Apesar das diferenças religiosas, Darwin e Brodie Innes, como era chamado o pároco da vizinhança, mantiveram uma relação amistosa durante toda a vida. Em dado momento, Darwin deixou de ir à igreja aos domingos, mas caminhava até lá com sua mulher e filhos e inclusive fazia doações à paróquia. Aliás, ele se correspondeu com muitos teólogos que davam apoio às suas conclusões científicas, chegando a reproduzir trechos dos escritos desses religiosos evolucionistas.

4)O naturalista era contra catequizar os indígenas da Terra do Fogo

Lembre-se de que Darwin visitou o extremo sul do nosso continente (e o Brasil também, mas essa é outra história) durante sua celebérrima viagem a bordo do navio Beagle. No filme, Darwin ironiza as tentativas dos britânicos de cristianizar os nativos da Terra do Fogo. Na vida real, porém, ele também ofereceu apoio financeiro às atividades missionárias dos súditos de Sua Majestade Britânica na região.

Finalmente, vale a pena registrar aqui um texto autobiográfico de Darwin no qual ele conta quais eram suas visões sobre Deus conforme ele estava escrevendo a “Origem”, e como essas opiniões se desenvolveram nos anos seguintes.

“Outra fonte de convicção sobre a existência de Deus, ligada à razão, e não aos sentimentos, parecia-me ter muito mais peso. Ela se seguia da extrema dificuldade, ou mesmo impossibilidade, de conceber este imenso e maravilhoso Universo, incluindo o homem, com sua capacidade de olhar para o passado distante ou para o futuro distante, como resultado do acaso ou da necessidade cegos. Quando refletia dessa maneira, sentia-me compelido a postular uma Primeira Causa que tinha uma mente inteligente, em algum grau análoga à do homem; e merecia ser chamado de teísta.

Tal ideia era algo firme em minha mente na época, até onde me lembro, quando estava escrevendo ‘A Origem das Espécies’; e é desde então que, gradualmente, com muitas flutuações, ela se tornou mais fraca. Mas então surge a dúvida – pode a mente do homem, a qual, como acredito firmemente, desenvolveu-se a partir de uma mente tão rudimentar quanto a do mais simples animal, ser digna de confiança quando tira tão grandiosas conclusões? Elas não poderiam ser o resultado da conexão entre causa e efeito que nos parece algo necessário, mas que provavelmente depende apenas da experiência herdada?

Também não podemos desconsiderar a probabilidade de que a constante inculcação de uma crença em Deus nas mentes das crianças produza um efeito tão forte e provavelmente herdado em seus cérebros ainda não totalmente desenvolvidos que para elas seria tão difícil se desvencilhar de sua crença em Deus quanto seria para um macaco se livrar de seu medo e ódio instintivos de uma serpente.

Não sou capaz de fingir que posso lançar o mínimo de luz sobre problemas tão abstrusos. O mistério do começo de todas as coisas é insolúvel para nós; e eu, de minha parte, tenho de me contentar em continuar sendo agnóstico.”

Tradução: esse sujeito não era o Dawkins, galera.

Para mais detalhes, este texto do Instituto Faraday, da Universidade de Cambridge, traz muitos dados legais.

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