Homens, fés e bombas

Por Reinaldo José Lopes
Emblema dos Tigres Tâmeis: uma pegada bem anos 1970, só que com baionetas (Crédito: Reprodução)
Emblema dos Tigres Tâmeis: uma pegada bem anos 1970, só que com baionetas (Crédito: Reprodução)

“Radicais islâmicos foram os inventores do conceito de homem-bomba: verdadeiro ou falso?”. Imagine essa questão num Enem da vida, gentil leitor. Sou capaz de apostar que até alguns dos candidatos mais preparados, e 90% de quem está fazendo a prova, cravariam “Verdadeiro” e ainda colocariam um ponto de exclamação depois da palavra.

Mas estariam errando ridiculamente feio, claro.

Tenho a honra (ou melhor, a tristeza) de apresentar os Tigres Tâmeis, ou Tigres da Libertação de Tamil Eelam, um grupo paramilitar/terrorista do Sri Lanka, que já não existe mais (foi derrotado pelo governo de seu país em 2009). Os Tigres Tâmeis fizeram quase 400 ataques suicidas desde 1976, quando surgiram — e eram um grupo nacionalista SECULAR. Ou seja, cujos objetivos nada tinham a ver com religião. Esse pessoal se matava (matando outros junto, claro) porque era separatista e queria um Estado exclusivo da etnia tâmil — não porque achava que ia direto para o paraíso por isso.

Esclarecendo melhor: embora ataques suicidas usando granadas tenham ocorrido na Segunda Guerra Mundial (soldados chineses se explodindo para derrubar tanques japoneses, por exemplo), os Tigres Tâmeis foram os inventores do figurino “clássico” do homem-bomba: o sujeito que veste um colete ou um cinturão de explosivos debaixo da roupa e parte para explodir a si mesmo e a seu alvo. Foi desse jeito que eles mataram, por exemplo, o ex-primeiro-ministro da Índia Rajiv Gandhi em 1991 — aliás, foi uma mulher-bomba a responsável.

E no chamado mundo islâmico? Os primeiros casos de homens-bomba datam de meados dos anos 1980 — e, mesmo assim, em muitos casos o atacante pertencia a um grupo nacionalista secular, e não a um grupo radical religioso.

É fácil reproduzir estereótipos. Infelizmente, o mundo é complicado.

—————–

Conheça meu novo livro — “Deus: Como Ele Nasceu”, uma história da crença em Deus das cavernas ao Islã. Disponível na Livraria da Folha em versão eletrônica e em versão papel nos sites da Livraria Cultura e da Saraiva

Confira meus outros livros de divulgação científica: “Além de Darwin” (ebook por apenas R$ 2!) e “Os 11 Maiores Mistérios do Universo” (em ebook aqui e aqui ou em papel aqui)

Conheça e curta a página do blog Darwin e Deus no Facebook

Quer saber quem sou? Confira meu currículo Lattes

Siga-me no Twitter ou no Facebook