Dez fatos: “Os Dez Mandamentos”

Por Reinaldo José Lopes
Ramsés retratado numa pegada "Desculpa aí que eu sou melhor que o Legolas" (Crédito: Reprodução)
Ramsés retratado numa pegada “Desculpa aí que eu sou melhor que o Legolas” (Crédito: Reprodução)

A novela “Os Dez Mandamentos” está prestes a terminar e andou vencendo a luta pela audiência com a Globo seguidas vezes, feito Moisés lançando as pragas divinas sobre o Egito. Este, porém, é um blog de ciência, o que significa que não vou discutir dramaturgia televisiva, e sim o que a arqueologia e a história têm revelado sobre o Êxodo, a matéria-prima da trama da Record. Sem mais delongas, vamos a dez fatos fascinantes e pouco conhecidos sobre “Os Dez Mandamentos”!

1)Ramsés 2º é uma péssima escolha para ser o faraó do Êxodo

E não, não estou falando do desempenho, como direi, meio germânico do ator Sérgio Marone. A questão é que não foi por acaso que Ramsés 2º ficou conhecido como “o Grande Ancestral” entre seus sucessores egípcios. Em certo sentido, seu longo reinado (de 1279 a.C. a 1213 a.C.) foi uma espécie de Era de Ouro da monarquia egípcia. Apesar de alguns reveses militares, o sujeito manteve firmemente sob seu controle o império que herdou da família, o qual incluía não só a terra do Nilo como vastas regiões da Ásia — incluindo todo o território atual de Israel e da Palestina, além de pedaços substanciais da Síria, da Jordânia e do Líbano.

O que isso significa? Que seria, em primeiro lugar, uma burrice tremenda se Moisés resolvesse levar seu povo para Canaã, a Terra Prometida, justo durante o reinado de Ramsés, porque isso equivaleria a fugir do Egito… para o Egito. A Terra Prometida era uma província egípcia, pessoal.

Por que então os filmes e as novelas teimam em apresentar Ramsés como o sujeito que levou uma tunda de Moisés (e de Deus, é claro)?

Por causa da estela de Merneptah, um monumento de pedra que data do reinado do faraó de mesmo nome, herdeiro e sucessor de Ramsés 2º, o qual reinou até 1203 a.C. Merneptah menciona uma série de vitórias do exército egípcio sobre cidades e povos de Canaã, incluindo um tal de Israel. Como esse documento histórico indicaria que os israelitas já estavam morando em Canaã nessa época, concluiu-se tradicionalmente que o Êxodo teria ocorrido na geração anterior a Merneptah — ou seja, na era de Ramsés.

Essa visão tem uma série de problemas, porém. O principal é que, diferentemente do que narra o livro bíblico de Josué, na época de Merneptah, e durante pelo menos mais uns 50 anos, o Egito continuou a controlar Canaã — ao menos a parte mais importante, formada pelas cidades-Estado do litoral, habitadas pelos “pagãos” cananeus. Ou seja, se os israelitas realmente vieram do Egito (e esse é um enorme “se”), tudo indica que eles não conquistaram imediatamente as cidades cananeias sob o comando de Josué, sucessor de Moisés, como diz a Bíblia.

A estela de Merneptah, que contém texto com a mais antiga menção ao povo de Israel (Crédito: Creative Commons)
A estela de Merneptah, que contém texto com a mais antiga menção ao povo de Israel (Crédito: Creative Commons)

2)O faraó realmente não teve sorte com a saúde de seus herdeiros

Você pode acreditar ou não na narrativa bíblica contando a morte do primogênito do faraó (e dos de todos os demais egípcios) na última e terrível praga lançada por Deus sobre o Egito. De todo modo, o fato é que o pobre Ramsés 2º não tinha sorte com a saúde dos príncipes. Merneptah, de quem falamos no item acima, era o DÉCIMO-TERCEIRO filho do rei do Egito. Só subiu ao trono porque todos os seus irmãos mais velhos morreram antes — em parte, é verdade, porque papai Ramsés morreu na casa dos 90 anos (não se sabe a idade exata de falecimento do faraó).

3)E realmente era dado a obras faraônicas

Assim como, na verdade, quase todos os faraós, cujas credenciais reais eram sempre fortalecidas com a construção de cidades, fortalezas e templos grandiosos. Uma de suas obras malufistas foi a construção de uma nova capital, Pi-Ramsés, no delta do Nilo. (Repare na modéstia do nome, em egípcio “Pi-Ramesses Aa-nakhtu” ou “Casa de Ramsés, Grande na Vitória”.) A Bíblia diz que os hebreus trabalharam na construção das cidades de “Ramsés e Pitom”, mas também afirma que eram cidades-entreposto, ou seja, usadas para armazenar víveres destinados a campanhas militares, o que não parece ter sido o caso de Pi-Ramsés, a qual estava mais para uma mistura de resort com Vaticano.

4)Mar Vermelho ou Mar dos Caniços?

O termo original em hebraico, “Yam Suph”, seria traduzido mais corretamente como “Mar dos Caniços”, ou seja, um corpo d’água pantanoso, cheio de plantas aquáticas, afirmam alguns especialistas modernos. Isso indicaria que o contexto original da cena de perseguição dos hebreus pelos carros de guerra dos egípcios incluiria um momento no qual as rodas dos veículos ficariam presas na lama, enquanto o povo de Moisés consegue escapar.

5)Cadê o Sinai que estava aqui?

Parece piada, mas o fato é que não se tem certeza absoluta sobre onde, afinal de contas, ficava o monte Sinai ou monte Horeb, onde Moisés teria recebido as instruções divinas para o povo de Israel. O lugar que recebe atualmente esse nome, em território egípcio, parece ter começado a ser venerado em época relativamente tardia, por volta do ano 400 d.C., por peregrinos cristãos.

6)Os 30 Mandamentos?

Existem até três versões diferentes dos Dez Mandamentos na Bíblia, por incrível que pareça. Duas delas estão no livro do Êxodo, enquanto a terceira se encontra no livro do Deuteronômio. A primeira versão no Êxodo (cap. 20, 1-17) e a do Deuteronômio (cap 5, 4-21) são muito parecidas, mas há ao menos uma diferença substancial na justificativa do mandamento para não trabalhar no sábado. Em Êxodo, a justificativa para o descanso tem a ver com a criação do mundo em seis dias, com o repouso divino no sétimo dia. Já em Deuteronômio, a razão é humanitária: até os escravos devem descansar no sábado, porque Deus acabou com a escravidão dos israelitas no Egito.

Já a segunda versão dos mandamentos no Êxodo (cap. 34, 11-26) tem só alguns pontos em comum com as demais, como a ordem para repousar no sábado e não adorar a ídolos, e várias outras coisas que são exclusivas dele, como o estabelecimento de festas religiosas e até a proibição de cozinhar um bezerro no leite de sua mãe (!). Essa versão é conhecida como Decálogo Ritual ou Decálogo Cúltico.

7)Mandamentos não, palavras

A tradução “Dez Mandamentos” não é muito feliz, na verdade. O termo original em hebraico bíblico é “dez palavras” ou “dez ditos” (“asereth ha-d’bharim”). Isso porque, se você ler o texto original com cuidado, verá que nem tudo ali é “mandamento” — algumas coisas são meras afirmações, como Deus dizendo “Eu sou o Senhor teu Deus”. Isso faz com que a conta exata dos mandamentos seja ligeiramente diferente entre judeus e as várias denominações cristãs — tradicionalmente, os judeus contam a afirmação da identidade de Deus como o “mandamento”, ou melhor, “palavra” número 1.

8)”Não cometerás assassinato”

Essa é a tradução mais correta do mandamento normalmente citado como “não matarás”, tanto pelo verbo utilizado quanto pelo fato de que a própria legislação mosaica permite que os israelitas matem durante guerras ou quando executam criminosos, por exemplo. A proibição de matar, portanto, está longe de ser absoluta.

Cenas do livro de Ester em imagem de sinagoga da antiga cidade de Dura-Europos, na Síria (Crédito: Creative Commons)
Cenas do livro de Ester em imagem de sinagoga da antiga cidade de Dura-Europos, na Síria (Crédito: Creative Commons)

9)”Não sequestrarás”

A tradução costumeira é “não roubar” ou “não furtarás”. Aqui, no entanto, o verbo é ambíguo: também era usado para o ato de sequestrar uma pessoa para vendê-la como escrava. Pelo contexto, e pelo fato de que os mandamentos que vêm depois já proíbem a cobiça dos bens do próximo, alguns especialistas defendem que “não sequestrarás” seria a tradução mais apropriada.

10)Imagens para todo lado

Uma leitura ao pé da letra do texto dos Dez Mandamentos parece proibir de forma absoluta a produção de quaisquer imagens naturalistas — ou seja, de qualquer coisa existente no mundo — e, óbvio, também o culto a elas como se fossem divinas. Na prática, porém, o próprio Deus teria instruído os israelitas a construir imagens (os querubins que adornavam a Arca da Aliança, por exemplo). Na Antiguidade, sinagogas do Oriente Médio também continham imagens (embora, claro, elas não fossem adoradas). A prática acabou se desenvolvendo e tomando corpo nas igrejas cristãs.

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