Dilemas de datação

Por Reinaldo José Lopes

Quando a gente lê que tal artefato ou fóssil “tem 20 mil anos” (ou 10 mil, ou 30 mil), “de acordo com o método do carbono-14″, parece a coisa mais fácil do mundo, certo? Sei lá, periga alguém achar que o pobre arqueólogo ou paleontólogo passou a costela de mamute num leitor de código de barras e “plim!”, apareceu a idade. Nada mais longe da verdade. O pesquisador russo Vladimir Pitulko me concedeu uma entrevista explicando como é difícil, na verdade, chegar a esse tipo de datação, e como o processo é uma espécie de arte, envolvendo raciocínio detetivesco, bom senso, sorte e incertezas.

Pitulko entende do riscado. Ele é o coordenador da pesquisa que demonstrou a presença de caçadores humanos no Ártico há 45 mil anos, conforme contei em reportagem recente nesta Folha. A chave do estudo foi justamente datar um cadáver de mamute e demonstrar que o bicho tinha sido abatido por seres humanos. Só que a datação em si não foi nada simples.

Carbono-14, em tese, parece baba. Essa forma mais pesada dos átomos do elemento carbono (mais pesada porque tem oito nêutrons, em vez dos seis do carbono-12, a forma mais comum) é instável. Ou seja, com o passar do tempo, vai lentamente perdendo nêutrons e virando nitrogênio, segundo uma taxa conhecida ao longo do tempo. Isso é uma maravilha para os arqueólogos e paleontólogos porque os seres vivos que incorporam carbono-14 em seu organismo, ao morrer, começam a passar por esse decaimento. Basta contar quanto carbono-14 sobrou na costela de mamute, versus quanto normalmente existe num organismo vivo, para estimar quando o paquiderme morreu. Mera conta de multiplicação. A taxa de sumiço do carbono-14 é tal que o método é útil, em geral, para a datação de objetos com até uns 50 mil anos de idade.

Fácil, né? Ouça o que me disse Pitulko.

DISCREPÂNCIAS

Para evitar escorregadas, os pesquisadores primeiro dataram amostras de material orgânico tiradas de cima e de baixo do cadáver de mamute. Faz sentido, uma vez que, em tese, isso daria uma idade mínima antes e depois da morte do animal (embora às vezes as camadas arqueológicas fiquem bagunçadas).

A data considerada mais confiável foi obtida a partir do colágeno (proteína estrutural do osso e da pele) da tíbia (osso da canela) do mamute. Foi daí que vem a data de 45 mil anos. Dá para calibrar essa data, levando em conta pequenas variações da quantidade de carbono-14 na atmosfera ao longo do tempo (isso depende da exposição da Terra a raios cósmicos que produzem esse tipo de átomo, por exemplo). Com a calibragem chega-se a uma estimativa de “anos de calendário”, ou seja, o que aquela data significa em anos “reais”. Algo, no caso, entre 49 mil e 47 mil anos atrás.

Lindo, só que os pesquisadores também dataram outras partes do mamute — outros ossos, restos de músculo, pelos. E, adivinhe só, o colágeno do ílio (um osso do quadril) resultou numa datação de… 38 mil anos. Como assim?

Bem, o ílio do bicho foi encontrado um pouco distante do resto do cadáver — e exposto à atmosfera, diferentemente do resto do mamute, que tinha ficado enterrado. Isso significa que ele provavelmente foi contaminado com carbono mais “jovem”, seja de micróbios, seja de outras criaturas que passaram por ali, o que teria “puxado para cima” sua idade, em especial por se tratar de uma amostra muito antiga, na qual tais variações modestas podem ser cruciais para a datação.

A propósito, as datas obtidas com as amostras de músculo e pelo também são um pouco mais jovens que as da tíbia. Pitulko e companhia atribuem isso ao fato de que tecidos moles tendem a sofrer mais contaminação bacteriana do que osso — em outro sítio do Ártico, eles viram a mesma disparidade entre a idade mais antiga do osso e a mais nova em tecidos moles de mamute.

Ou seja: os pesquisadores precisam levar em conta uma multidão de fatores, considerar as incertezas e, só depois de tudo isso, propor a idade que lhes parece mais razoável. Os dados raramente falam por si sós — é preciso, quase sempre, um jeito coerente de interpretá-los.

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