Homo ferox

Por Reinaldo José Lopes

O escritor britânico T.H. White, autor da série de romances arturianos “The Once and Future King” (“O Único e Eterno Rei”, em português), foi o sujeito responsável por cunhar o nome científico alternativo da espécie humana que usei no título deste post. Para ele, não somos Homo sapiens, o homem sábio, mas Homo ferox, o homem feroz, uma criatura com um potencial para a violência que nunca pode ser subestimado. Seja qual for a sua visão, é indiscutível que uma descoberta anunciada na semana passada mostra, ao mesmo tempo, o nosso lado ferox e a nossa faceta sapiens — uma chacina cuidadosamente planejada que deixou 12 mortos à beira do lago Turkana, no Quênia, há 10 mil anos. Trata-se do mais antigo exemplo claro de um comportamento equivalente à guerra envolvendo membros de nossa espécie, como contei nesta reportagem há alguns dias.

Entrevistei a líder do estudo, a brasileiro-argentina Marta Mirazón Lahr (ela nasceu em Buenos Aires, mas fez biologia na USP e foi professora lá antes de ir para Cambridge), e tenho o prazer de compartilhar abaixo o papo na íntegra (por e-mail). As perguntas estão em negrito Confiram.

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“Oi Reinaldo,

Que bom ler teu mail! Tenho recebido muitas perguntas de jornalistas, mas nada do Brasil até tua mensagem ☺!

Te respondo breve, porque estou em Turkana, com uma conexão à internet via satélite, e não vai durar muito – e hoje, depois de meses sem uma gota d’água, choveu a tarde inteira e a internet parou de funcionar! Te mando as respostas abaixo (adorei tuas perguntas, diferentes de outros que só querem repetido o que diz no artigo!).

Se te interessa, posso também te mandar um link de Dropbox com imagens que estamos colocando à disposição do público pra quem quizer usar imagens diferentes das que Cambridge colocou no ‘Media Package’ – me diz se você quer acesso. Também tenho um texto que escrevi ontem (em inglês) que vou colocar no website do projeto na quinta-feira, mas poderia te mandar se for útil.

Um grande abraço,

Marta

1)Não existe nada parecido com o que vocês encontraram envolvendo hominídeos arcaicos, “não sapiens”? Lembro-me de registros de canibalismo entre neandertais, que poderiam indicar violência prévia, mas nada exatamente desse tipo com um grupo grande de indivíduos que sofreram lesões letais aparentemente ao mesmo tempo, certo?

Não, nada como o que encontramos em Nataruk existe em hominídeos arcaicos – também não existe no registro de Homo sapiens anterior a Nataruk. Canibalismo sim, também evidências de violência – por exemplo no neandertal de St Cesaire, que tem lesões no crânio que claramente são o resultado de um ataque. Mas como só tem uma vítima, pode ter sido uma briga entre 2 pessoas, e não parte de um conflito entre 2 grupos. O problema é que as chances de preservar vários esqueletos que morreram ao mesmo tempo (as pessoas, não os esqueletos ;)) sem ser enterrados são mínimas. Nataruk é um caso extraordinário por isso.

Corpo de um dos homens mortos no Quênia há 10 mil anos, com possíveis lesões de porrete e flechadas (Crédito: Marta Mirazón Lahr)
Corpo de um dos homens mortos no Quênia há 10 mil anos, com possíveis lesões de porrete e flechadas (Crédito: Marta Mirazón Lahr)

2)As lâminas de pedra achadas com os esqueletos são mais compatíveis com o uso como pontas de flecha ou poderiam ser outras armas?

Acreditamos que tenham sido pontas de flechas. Mas os atacantes usaram várias armas diferentes – flechas com pontas de pedra, flechas sem ponta (afiadas), “clubs” (não tenho certeza de como traduzir em português) [OBS: seriam porretes ou bordunas] de 2 tamanhos diferentes, e uma outra arma que tinha fio, provavelmente um pau com lâminas inseridas, já que algumas das lesões são cortes profundos na face (em 2 casos) e na mão de um terceiro.

3)Classificações são, em grande medida, arbitrárias, mas para a sra. a situação no lago Turkana seria descrita de modo mais acurado como chacina, como “raid” (ataque-surpresa breve) ou como guerra mesmo?

Como você diz, classificações são sempre arbitrárias, mas ajudam a cristalizar as ideias. Na minha opinião, o que aconteceu em Nataruk foi um “raid” – um ataque de um grupo a outro pra roubar alguma coisa. Mas no fundo, “raids” são uma forma de guerra…

A alternativa seria que o que os achados de Nataruk revelam é a reação normal quando dois grupos diferentes se encontravam por acaso (não diferente dos chimpanzés, entre os quais encontros casuais de 2 grupos são sempre antagonísticos). Mas tem várias razões pelas quais eu acho que em Nataruk temos evidências de um ataque premeditado – os atacantes carregavam armas que não fazem parte do “kit” normal de caçadores-coletores que vão à caça, e o ataque envolveu armas usadas a distância (como flechas) e outras de perto, o que sugere planejamento.

O fato que 2 das três pontas de flecha encontradas nos esqueletos eram feitas de obsidiana, uma matéria-prima exótica nesta região de Turkana, sugere que os atacantes vinham de outro lugar. E por último, tem mais 3 exemplos de violência datada da mesma época nesta região (mas casos isolados) – um esqueleto encontrado por Larry Robbins no sítio de Lothagam (~20 km ao norte de Nataruk) nos anos 70, que tinha uma ponta de flecha nos ossos do pé, e 2 esqueletos escavados pela nossa equipe no sítio de Kalakoel 4 (~ 2 km de Nataruk), um com uma lesão circular na pelve (provavelmente de uma flecha), e o outro (de uma mulher jovem) com uma ponta de flecha encaixada numa das vértebras lombares.

Em ambos os casos as pontas de flecha são de obsidiana. Eu acho que o conjunto das evidências aponta para ataques repetidos levados a cabo por outro grupo, que tinha acesso a obsidiana como matéria-prima.

A importância é que isso sugere que pelo menos duas das condições normalmente associadas às guerras (luta por território e/ou recursos) já existiam entre os caçadores-coletores, entre os quais já existiria o conflito armado e premeditado. Por isso acredito que o fator determinante das guerras não teria sido o sedentarismo e a agricultura, mas a densidade das populações. Independente destas serem de agricultores ou caçadores-coletores, quando a população aumenta ao ponto dos recursos não serem suficientes, haverá competição pelos mesmos e conflito. É parte do processo evolutivo, e provavelmente fora parte do nosso passado pré-histórico em todas as ocasiões em que pressão populacional levou um grupo a querer o que outro tinha (e isso foi o que nós fizemos com os neandertais…)

4)Fiquei surpreso com a alta presença de mulheres entre as vítimas. Isso não foge um pouco do padrão etnográfico da guerra de pequena escala? A sra. ficou surpresa também?
Sim, fiquei surpresa também. Mas no fundo, depende do objetivo do conflito, e os registros etnográficos mostram que, dependendo destes, em guerras de pequena escala as mulheres podem ser sequestradas, ignoradas ou mortas. É interessante que em Nataruk falta uma parte da população – com a exceção de uma menina de 12-14 anos, não tem ninguém entre 6 anos e adultos entre as pessoas que morreram em Nataruk. Nunca vamos saber se as crianças e os adolescentes conseguiram fugir, ou foram levados….

5)Uma pergunta mais pessoal, porque acho que é legal falar a respeito para os leitores: a sra. pensa em voltar ao trabalhar no Brasil?
A vida é cheia de surpresas, mas no momento não tenho planos de voltar a morar no Brasil – meus pais e duas das minhas irmãs moram em São Paulo, que continua sendo a “minha casa”, mas meu marido é inglês e os meus filhos moram na Inglaterra… Mas adoraria voltar a ter projetos no Brasil, ou ter alunos brasileiros participando nos nossos projetos aqui na África!

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