Supervovôs bíblicos

Por Reinaldo José Lopes

Adão teria morrido aos 930 anos de idade; seu filho Set, aos 912; o neto de Adão, Enós, teria partido desta para uma melhor quando tinha 905 anos. Esquisito, não? Este é mais um episódio de “Darwin e Deus Responde”, senhoras e senhores, e a nossa intenção aqui é elucidar essas idades gigantescas dos personagens do livro bíblico do Gênesis.

Com este post, tenho o prazer de responder às dúvidas de diversos leitores que me escreveram sobre o mesmo tema: Renato Ladeia, César A. Robles e Marcos Ribeiro Pereira. Obrigado pelo e-mail, pessoal! (Aliás, outras dúvidas sobre os temas do blog? Não se acanhe: escreva para darwinedeus@gmail.com.)

TRADIÇÃO ANTIGA

Para começo de conversa, não acho que seja necessário postular alguma superioridade genética dos patriarcas primevos ou algo especialmente saudável no ambiente deles para explicar essas idades loucamente avançadas. As tradições registradas no Gênesis são basicamente mitológicas e têm como objetivo conjurar a ideia de um distante “tempo das origens”. Não são registros históricos, em outras palavras. Também não cola o costume de fazer correspondências do tipo “930 anos deles = 93 anos dos nossos”, não há nenhuma indicação disso no texto.

Isso significa que, para entender tais números, o melhor caminho é pensar em como funcionava a cultura do antigo Oriente Próximo. Primeiro, do ponto de vista mais genérico, vida longa normalmente significa bênção divina. Então, em certo sentido, as idades gigantescas representam uma humanidade em contato muito mais próximo com o Criador do que a das gerações que vieram depois.

Uma das cópias da Lista dos Reis Sumérios (Crédito: Reprodução)
Uma das cópias da Lista dos Reis Sumérios (Crédito: Reprodução)

Mas, fora isso, temos paralelos diretos para esses loooongos tempos de vida num documento interessantíssimo, a Lista dos Reis Sumérios (mais informações sobre ela aqui, em inglês), que chegou até nós em diversas cópias, a mais recente datando mais ou menos de 1800 a.C. Os sumérios eram um povo que vivia em cidades-Estado no sul do atual Iraque (a antiga Mesopotâmia), e a lista registra nomes de reis, dinastias e a duração de ambos. É, além disso, dividida em antes e depois do Dilúvio — sim, um dilúvio muito semelhante ao narrado na Bíblia. E, tal como na Bíblia, os reis anteriores do Dilúvio vivem muito, muito mesmo — aliás, mais do que os patriarcas bíblicos.

Que tal, por exemplo, o reinado de En-men-lu-ana, de 43 mil anos? Aliás, o reinado mais “curto” dos soberanos antediluvianos (anteriores ao Dilúvio) teria ultrapassado os 18 mil anos. Mesmo depois da catástrofe, vários deles teriam governado seu povo por mais de mil anos, segundo a lista. A coisa só se normaliza com Ur-Nungal, filho de Gilgamesh, e seu governo de apenas 30 anos, talvez por volta de 2600 a.C.

O que explica a perda de longevidade? Lembre-se da seguinte frase: “Meu espírito não permanecerá no homem, pois ele é carne; não viverá mais que cento e vinte anos”. É o que diz Deus no capítulo 6 do Gênesis. A ideia é que o progressivo abismo entre o homem e o Criador leva a uma vida mais curta. Além disso, era comum entre os povos do antigo Mediterrâneo a ideia de que o mundo vive um constante declínio, com uma Idade do Ouro primitiva sendo sucedida por eras menos gloriosas. Os textos bíblicos provavelmente trazem uma versão monoteísta desse mito.

É difícil saber de onde vieram os números específicos. Talvez eles estejam ligados a tradições referentes a cada um dos personagens míticos da época de Adão; talvez tenham algum significado simbólico. De qualquer modo, o que não dá é aceitá-los ao pé da letra.

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