A saga do Tatu-Fusca

Por Reinaldo José Lopes

Mano, é óbvio que o bicho da imagem aí de cima é só um tatu supercrescido, certo? A gente precisava mesmo de um estudo complexo de DNA antigo para comprovar isso?

Na verdade, precisava — não para mostrar que o Doedicurus e os demais mamíferos com aparência e tamanho de Fusca da Era do Gelo, conhecidos como gliptodontes, eram parentes dos tatus modernos, o que está meio que na cara, mas sim qual o grau exato de parentesco desses bichos com a tatuzada de hoje, o que de fato era meio misterioso.

Principal motivo do mistério: a anatomia dos gliptodontes — que inclusive rondaram esta Terra de Santa Cruz dezenas de milhares de anos atrás — é muito especializada. A carapaça dos bichos, por exemplo, era rígida, feita de osteodermas (placas ósseas) fundidas umas nas outras, diferentemente das placas móveis dos tatus modernos. E nenhum dos bichos de hoje possui essa maça (ou, pra quem jogava ou joga RPG, eu diria até mangual) na ponta da cauda. Muita gente achava que os bichos tinham se separado dos ancestrais dos demais tatus no passado remoto, talvez lá perto do fim da Era dos Dinossauros.

Daí as análises de DNA conduzidas num espécime argentino pela equipe de Hendrik Poinar, da Universidade McMaster, no Canadá, e publicadas na revista científica “Current Biology”. O resultado é interessante justamente por mostrar que o Doedicurus está lá na zona do agrião, como diriam comentaristas esportivos idosos da TV — bem no meio dos vários grupos de tatus. A imagem abaixo diz tudo.

Árvore genealógica dos tatus: repare como os gliptodontes, marcados com a linha vermelha, estão bem no meio do grupo (Crédito: Reprodução)
Árvore genealógica dos tatus: repare como os gliptodontes, marcados com a linha vermelha, estão bem no meio do grupo (Crédito: Reprodução)

Pra ser mais exato, no linguajar dos biólogos, os bichos são o “grupo irmão” (parente mais próximo) do conjunto formado por dois subgrupos modernos de tatus: de um lado os “pichiciegos”, tatuzinhos da Argentina e da Bolívia; de outro os maiores tatus vivos, como o tatu-canastra do nosso cerrado.

Isso indica, segundo os autores do estudo, que o gigantismo (eu diria até a síndrome de Fusca) dos gliptodontes é um troço recente, datado da última Era do Gelo (menos de 2 milhões de anos pra cá); antes disso, eles tinham mais ou menos o tamanho do nosso tatu-canastra, que tem no máximo uns 50 kg.

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