Vídeo: a mulher do Senhor?

Por Reinaldo José Lopes

Está no ar mais um vídeo do canal Darwin e Deus no YouTube, pessoal! O vídeo pode ser acessado abaixo, mas resolvi fazer um post por escrito também — que é basicamente o roteiro do vídeo — para não deixar na mão os leitores com dificuldades de audição, que me pediram especificamente para disponibilizar uma versão texto dos vídeos. Confiram abaixo e espero que gostem!

Elen síla lúmenn’omentielvo, pessoal — uma estrela brilha sobre a hora do nosso encontro! Estou de volta e, aproveitando que ainda estamos na Semana da Mulher, resolvi falar de um possível lado feminino do Deus bíblico. Para entender isso, vamos fazer uma jornada rumo a um sítio arqueológico fascinante e de nome quase impronunciável: Kuntillet Ajrud.

Esse lugar fica no deserto do Sinai, do atual lado egípcio da fronteira com Israel, e foi escavado pela primeira vez pela equipe do israelense Ze’ev Meshel entre 1975 e 1976. Não dá pra ter certeza da função que esse local desempenhava originalmente, mas as indicações que a gente têm até agora sugerem que se tratava de um misto de “pit stop”/posto de beira de estrada para caravanas que atravessavam o deserto e também uma espécie de santuário religioso, isso em torno dos anos 900 a.C. e 800 a.C.

Tudo isso a julgar pelas inscrições e pelos desenhos achados no lugar, além da presença de vasos de cerâmica e outros objetos que parecem ter sido dedicados a divindades — dedicados no sentido de que eles foram doados para o santuário, mais ou menos como alguém que acredita ter alcançado uma graça às vezes doa alguma lembrança ligada ao fato à basílica de Aparecida, por exemplo.

inscrição e desenhos
Inscrições e desenhos do sítio arqueológico. À esquerda, casal divino, tocadora de lira, vaca com bezerro. À direita, árvore sagrada com animais e leão. (Crédito: Reprodução)

Pois bem: como o lugar está na rota que liga o Egito aos antigos reinos de Israel e Judá, seria natural achar artefatos ligados a esses reinos, mas os arqueólogos não estavam preparados para essas imagens aí em cima. Esse casal de figuras esquisitas, que talvez tenham traços de animais (bois? felinos?), está encimado pela seguinte inscrição em hebraico:

“Berakhti etkhem l’YHWH Shomron ul’Asherato” — ou seja, eu o abençoei por Yahweh de Samaria e sua Asherah. Bom, e daí?

Sabemos quem era Yahweh — é o Deus bíblico do Antigo Testamento. Samaria era a capital do reino de Israel, na parte norte da antiga terra de Canaã. Asherah, por outro lado, é uma deusa pagã da fertilidade cujo culto é veementemente condenado pelos profetas bíblicos. O bizarro aqui é justamente eles aparecerem associados, e não em oposição, como na Bíblia.

Não se sabe se o desenho estaria retratando esse casal divino. Pode ser que a imagem não tenha nada a ver com a inscrição, depende do arqueólogo pra quem você pergunta. Ah, e tem ainda um problema gramatical: “sua Asherah” é uma construção bem estranha em hebraico, é como se eu dissesse que a minha esposa é a “minha Tania”. Por isso, tem gente que acha que o termo não se refere à deusa, mas ao objeto sagrado associado a ela, que é um poste de madeira.

Então temos duas opções: ou Yahweh era adorado junto com sua “mulher divina” Asherah ou associado a um objeto sagrado, a Asherah. O debate sobre isso ainda vai dar muito pano pra manga, acredite.

A capa do discaço "Música no Tempo das Caravelas", do Grupo de Música Antiga da UFF
A capa do discaço “Música no Tempo das Caravelas”, do Grupo de Música Antiga da UFF

MÚSICA DE DOM MANUEL, Ó PÁ!

E agora vamos à parte musical. Tentei gravar a música junto com o vídeo, ficou uma porcaria, aí gravei a música no meu celular e ficou um pouco menos pior — mas juro que sou eu tocando.

Esta canção se chama “Aquella voluntad que se ha rendido”, está registrada no Cancioneiro de Elvas, uma coletânea provavelmente feita lá por 1560-1570 em Portugal. Não sabemos quem é o autor, mas parece que a obra é um pouco mais antiga, do começo do século 16. Para o arranjo mequetrefe no meu teclado, minha inspiração foi a versão infinitamente melhor do grupo de música antiga da UFF (Universidade Federal Fluminense), no disco Música no Tempo das Caravelas. O disco é sensacional, infelizmente está esgotado, mas talvez vocês ainda consigam encontrá-lo em sebos ou na internet.

É isso! Se vocês acham que eu não levo jeito pra coisa mesmo e que é melhor desencanar de colocar música no canal, por favor me digam nos comentários. Vou pedir aquele proverbial joinha, aquele tapa no dedão pra me ajudar na divulgação do canal. E não se esqueçam, crianças, daquele velho ditado hobbit: passarinho que come pedra sabe o fiofó que tem. Um beijo carinhoso, fiquem com Deus e até a próxima!

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