O Evangelho do traidor

Por Reinaldo José Lopes

Mais um vídeo no ar no canal do blog, pessoal! (Vocês ainda não conhecem? É o glorioso www.youtube.com/reinaldojoselopes). Desta vez, uma minissérie sobre os fatos históricos e interpretações teológicas ligados à Semana Santa, começando com o misterioso Evangelho de Judas. Como de costume, temos abaixo a versão escrita do vídeo. Agradeço a todos os que curtirem o material e puderem se inscrever no canal!

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A gente não sabe muito bem como o Evangelho de Judas foi encontrado e passou de mão em mão, porque ele acabou chegando às mãos dos especialistas por meio do comércio egípcio de antiguidades, que é bem nebuloso. De qualquer jeito, o conteúdo dele foi revelado pela primeira vez em 2006, com a publicação da primeira tradução do texto, feita pelo suíço Rodolphe Kasser — aliás, eu mesmo fiz a matéria pra Folha quando saiu essa publicação, vejam só!

O texto está em copta, que era a língua nativa dos egípcios da época do Império Romano e é descendente direta da língua dos faraós. O manuscrito, ou códice, feito de papiro, foi bem maltratado ao longo do tempo, então a estimativa é que menos de três quartos do texto original tenham chegado até nós. A datação do material do manuscrito em si, feita pelo método do carbono-14, indica que ele foi produzido lá pelo ano 280 d.C. (óbvio que é depois de Cristo, né), com margem de erro de uns 60 anos pra mais ou pra menos. Isso não significa necessariamente que o texto foi criado pela primeira vez nessa época — a estimativa dos especialistas é que ele seja talvez um século mais antigo que isso, ou seja, com uma data entre os anos 150 e 200.

O manuscrito do Evangelho de Judas (Crédito: Reprodução)
O manuscrito do Evangelho de Judas (Crédito: Reprodução)

De qualquer jeito, a gente já pode tirar uma coisa da cabeça: a de que o texto tenha alguma informação inovadora sobre o Jesus histórico ou o Judas histórico. Não é só por causa da data — a questão é que o conteúdo teológico do Evangelho de Judas está totalmente descolado do contexto original do pensamento de Jesus e seus discípulos, que é o judaísmo da Galileia, bastante conservador (no sentido de se ater basicamente a interpretações não muito viajantes do Antigo Testamento). Quem lê o texto e conhece as correntes filosóficas e religiosas da Antiguidade percebe na hora que o texto tem uma influência pesada das especulações teológicas dos pensadores gregos tardios, em especial os que viviam no Egito.

E são especulações um bocado viajantes. O Evangelho de Judas é um texto gnóstico, ou seja, ele faz parte de uma corrente de pensamento do cristianismo antigo para a qual o importante para a salvação dos homens não foi a morte de Jesus na cruz e sua ressurreição, mas sim o conhecimento secreto sobre a esfera espiritual que Cristo trouxe pra humanidade — conhecimento em grego é “gnosis” (pronuncia-se “gnóssis”), daí o nome dos gnósticos.

Hoje em dia nós conhecemos dezenas de textos gnósticos, e uma das características mais marcantes deles é o fato de que eles têm pouca ou nenhuma narrativa. Ou seja, eles não contam histórias sobre a vida de Jesus, mas preferem relatar conversas misteriosas dele com os discípulos — e às vezes com um discípulo especial que Jesus teria escolhido para instruir nos conhecimentos secretos sobre a sua salvação. Às vezes esse discípulo predileto é Tomé, às vezes até Maria Madalena, e neste caso aqui é o próprio Judas Iscariotes, o famoso traidor.

A teologia gnóstica é supercomplicada, mas grosso modo dá pra resumi-la do seguinte jeito: o Deus que criou o universo físico não é o verdadeiro Deus, mas um espírito menor, uma espécie de anjo megalomaníaco, que se perverteu. E esse é o mesmo Deus do Antigo Testamento. É por isso que existe tanto sofrimento no mundo: porque esse Criador na verdade é incompetente ou mesmo mau. As almas dos seres humanos pertencem ao reino espiritual e derivam do Deus verdadeiro e bondoso, mas ficaram presas à matéria do Universo físico por maldade do Criador de segundo escalão.

Caravaggio retratando o beijo de Judas e a prisão de Jesus
Caravaggio retratando o beijo de Judas e a prisão de Jesus (Crédito: Reprodução)

Isso significa que o papel de Jesus, que é um emissário poderoso do verdadeiro Deus, é vir até a Terra e ensinar às pessoas sobre sua verdadeira natureza espiritual, para que elas possam se libertar da divindade malvada e voltar para o reino perfeito do espírito. Eu avisei que era meio doido, não avisei? São ideias inspiradas, por exemplo, na obra do filósofo grego Platão, que viveu uns 400 anos antes de Jesus.

Bom, isso ajuda a explicar algumas das esquisitices do Evangelho de Judas. Há, por exemplo, uma passagem na qual Jesus confronta os apóstolos e só Judas consegue perceber quem Jesus é de verdade, dizendo:

“Eu sei quem és e de onde vieste. És do reino imortal de Barbelo. E eu não sou digno de proferir o nome daquele que te enviou.”

Ou seja, Judas é o único que entende que Jesus veio do reino espiritual. Ao notar isso, Cristo resolve transmitir seu conhecimento secreto a Iscariotes:

“Afasta-te dos outros e eu te contarei os mistérios do Reino.”

Jesus então explica a Judas a verdadeira história das origens cósmicas, diz que o Deus adorado pelos outros apóstolos é malévolo e dá a entender que a traição de Judas na verdade faz dele uma figura gloriosa:

“Mas tu suplantarás a todos eles [os outros apóstolos]. Pois sacrificarás o homem que me veste. Teu chifre já foi erguido, tua ira foi acesa, tua estrela brilhou iluminada, e teu coração se tornou forte.”

Ou seja, ao permitir a morte de Jesus, Judas estará apenas libertando o espírito glorioso que habita o corpo de Cristo, o qual poderá voltar para a esfera divina, o que é uma coisa boa, segundo o pensamento gnóstico.

Um detalhe final importante: ainda há uma certa controvérsia sobre a interpretação desse evangelho. Alguns pesquisadores defendem que Judas continua sendo vilão nesse texto, embora seja um vilão mais trágico porque, mesmo recebendo todo o conhecimento secreto da boca de Jesus, ainda assim o trai. O debate certamente vai continuar por um bom tempo.

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