Religião, ciência e imprensa

Por Reinaldo José Lopes

O jornal “O São Paulo”, da Arquidiocese de São Paulo, fez uma entrevista comigo sobre a relação entre cientistas e a crença em Deus. Também abordaram brevemente como a imprensa enxerga as questões religiosas. O motivo da conversa foi uma mesa-redonda sobre o tema de que participei na PUC-SP, no glorioso Tucarena, já faz algumas semanas. Você pode conferir a entrevista clicando aqui e, abaixo, colo alguns dos melhores trechos.

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O SÃO PAULO – Qual a relação entre Deus e os cientistas?

Reinaldo José Lopes – É uma relação que varia muito de cientista para cientista, obviamente. Pesquisas de opinião feitas nos Estados Unidos sugerem que pouco mais da metade dos cientistas não acreditam em Deus. Então, essa questão não se coloca pra eles ou se coloca de maneira negativa, ou seja, enxergam Deus como mera ilusão humana. Por outro lado, houve no passado e ainda há hoje um número significativo de cientistas que enxerga o mistério da existência, a nossa incapacidade de abarcar tudo o que existe no universo apenas com a razão e a experimentação, como algo que aponta para Deus.

Essas pesquisas também falam da relação dos cientistas brasileiros?

Não, infelizmente não temos dados sobre o tema a respeito de cientistas brasileiros. Meu palpite é que os dados aqui seriam bem parecidos, mas é só um palpite.

Como enfrentar de forma mais decidida a perspectiva conjunta ciência/religião?

Creio que os teólogos deveriam, em primeiro lugar, entender melhor o que a ciência moderna diz sobre a vida na Terra e a estrutura do Universo, por exemplo. A partir disso, acho que vale a pena tentar os “insights” e a beleza dessa visão na maneira como concebemos a relação de Deus conosco e com a criação – sem apagar a Tradição da Igreja, óbvio, mas dando a ela uma nova e bela roupagem, digamos.

A Laudato si’ [encíclica do papa Francisco] fala da natureza, do planeta e do meio ambiente. Essa Encíclica pode ser vista como uma busca de diálogo entre a ciência e a religião?

Sim, a Laudato si’ é um exemplo belíssimo dessa possível nova visão. O Papa Francisco não apenas baseia seu argumento inicial totalmente em dados científicos sobre a gravidade das mudanças climáticas, como vai além e mostra com clareza as implicações éticas e teológicas das verdades que descobrimos pela ciência. Ele destaca, ainda, a importância da relação entre o homem e as demais formas de vida e aponta, inclusive, para uma escatologia, para uma história da salvação, que engloba todos os seres vivos, já que segundo o Gênesis, toda a Criação é boa e desejada por Deus por ela mesma, e não apenas para servir ao homem.

Mas como essa relação do cientista que crê em Deus se dá na prática? Isso não é um contrassenso?

Não me parece um contrassenso. Essa impressão é preconceituosa, na verdade. A questão é entender como Deus age no Universo. Se você é um cientista que acredita em Deus, você, pela fé, acreditará que Deus é o responsável por estabelecer as leis da natureza que deram origem à complexidade do nosso mundo. Ou seja, não é que Deus fique sem emprego, mas sim que ele atue de modo mais sutil.

Quais as alternativas para os jovens viverem essa relação de ciência e religião, principalmente na fase de estudos sobre temas científicos que põem em xeque as coisas que aprenderam na Igreja, na Catequese e na Crisma, por exemplo?

Na verdade é simples. Pra começar, eu sinceramente vejo poucas chances de a crença de alguém ser desafiada durante a época escolar ou mesmo na faculdade. Basta não ser um literalista bíblico – ou seja, achar que os relatos da Bíblia são todos literalmente verdade, coisa que a Igreja já não faz há muito tempo e inclusive não fazia nos primeiros séculos cristãos. Fora isso, basta ter discernimento para separar fatos de interpretações. Que nós evoluímos a partir de um grupo de primatas africanos é um fato; agora, achar que isso “prova” que Deus não existe é uma interpretação que força os fatos a se encaixarem numa visão filosófica pré-concebida.

Como a imprensa vê essa relação entre Deus e Ciência?

Não posso falar pela imprensa inteira, obviamente. Minha percepção, feita essa ressalva, é que a grande imprensa é muito menos religiosa que a média da população – a exemplo da comunidade científica – e, portanto, tem uma tendência a adotar um modelo simplista de confronto entre ciência e religião. É algo que precisa ser melhorado com mais estudo e uma formação mais aprofundada por parte dos jornalistas.

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