Antropofagia jesuítica

Por Reinaldo José Lopes

OK, todo mundo que tenha frequentado pelo menos o ensino fundamental deste país já ouvir falar de jesuítas como São José de Anchieta (1534-1597) tentando catequizar as tribos de língua tupi do litoral, fazendo de tudo para trazê-las ao catolicismo. O que, confesso, jamais imaginei é que Anchieta se dispusesse a usar os elementos básicos dos rituais de antropofagia dos grupos tupis em seu teatro religioso, basicamente imaginando uma versão cristianizada do sacrifício ritual dos inimigos dos tupis.

Para quem não sabe, grupos como tupinambás e tupiniquins costumavam dar um tratamento nem um pouco simpático a seus prisioneiros de guerra. O guerreiro inimigo era amarrado no terreiro da aldeia, e o responsável por capturá-lo, armado com o tacape ritual conhecido como ibirapema, aproximava-se e quebrava o crânio do adversário derrotado a pauladas. O corpo da vítima era esquartejado, assado e consumido por todos os moradores da aldeia — menos pelo carrasco, que ganhava um novo nome após a execução ritual.

Pois é mais ou menos isso que, numa das obras de Anchieta, um anjo faz com o demônio chamado Macaxera: dá-lhe uma paulada na cabeça e proclama:

“Pronto! Matei Macaxera!

Já não existe o mal que era…

Eu sou Anhangupiara!”

Anhangupiara = inimigo dos demônios, em tupi.

Esse trechinho poderoso e surpreendente do teatro jesuítico está registrado no livro “Índios no Brasil: História, Direitos e Cidadania”, de Manuela Carneiro da Cunha. Anchieta parece ter sido culturalmente antropofágico, ainda que não literalmente.

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