Genes, raças e preconceito

Por Reinaldo José Lopes

Pode até não parecer, dado o nome deste blog, mas eu realmente ODEIO treta, gente. Mesmo assim, acabei totalmente enrolado numa treta das piores com a publicação, na semana passada, desta reportagem de minha lavra na Folha. Pra quem não leu, trata-se de uma análise genética de 3.000 britânicos com o objetivo de identificar quais características foram alvo da seleção natural naquela população (guardem bem esse detalhe em itálico, ele é importante pra discussão a seguir) nos últimos milênios. A lista identificada no estudo: cabelos louros, olhos azuis, altura elevada (como o Daniel Craig ali em cima), tamanho maior dos bebês ao nascer, quadris mais largos das mulheres. Acabei sendo bombardeado no Facebook por pessoas que acharam a reportagem racista e até mencionaram Hitler.

No atual clima de polarização política, com demagogos ameaçando direitos de minorias no mundo todo e ganhando claques cada vez mais numerosas com isso, eu devia ter sido menos ingênuo e me preparado pra esse tipo de reação – as pessoas andam com medo, em parte com razão. É verdade que o texto incluía esta passagem, que eu coloquei lá deliberadamente pra barrar esses mal-entendidos:

“De qualquer modo, não há nada intrinsecamente ‘mais evoluído’ nesses traços – tanto que, em regiões tropicais, eles teriam sido exterminados antes do advento dos filtros solares.”

É, não adiantou grande coisa – até porque as pessoas têm a adorável (#sqn) mania de ler apenas títulos de textos. Por isso, aqui vão alguns esclarecimentos cruciais.

1)EVOLUÇÃO E/OU SELEÇÃO NATURAL ≠ PROGRESSO

Esse é o tipo da coisa que as pessoas deveriam aprender na escola, mas não aprendem ou esquecem, e que eu tentei explicar no parágrafo citado acima, sem sucesso.

“Evolução” em biologia significa simplesmente “mudança”. Não tem nada intrinsecamente bom ou ruim, mais avançado ou menos avançado, em “evoluir”. Exemplo trivial: a linhagem humana deriva de grandes macacos africanos que eram quadrúpedes e se tornaram bípedes. Andar com duas pernas tem suas vantagens (embora os paleoantropólogos ainda debatam exatamente qual foi a vantagem original), mas também é responsável por nos conferir uma coluna vertebral estranhamente retorcida que causa toda a multidão de dores nas costas típica dos humanos idosos. E todos os seres vivos, da mais humilde bactéria ao Homo sapiens, estão “evoluindo” sem parar nesse sentido; ninguém, portanto, é “mais evoluído” do que outro indivíduo da mesma espécie, ou outro indivíduo de uma espécie diferente.

“Seleção natural” é um caso especial (provavelmente o mais importante) da “evolução” vista de modo mais amplo. Em resumo, características favorecidas pela seleção natural são as que auxiliam na sobrevivência e, principalmente, no sucesso reprodutivo (ter mais filhos saudáveis do que a concorrência, para simplificar) e que podem ser transmitidas hereditariamente, de pai ou mãe para filho ou filha.

Ou seja, as características citadas na minha reportagem não são – jamais teriam como ser!!! – o “melhor padrão” da humanidade ou coisa que o valha. É só o que ajudou alguns dos membros daquela população (olhaí o itálico de novo) a se reproduzir mais do que outros ao longo do tempo, tornando-se, portanto, mais comuns com o passar dos séculos, o que é basicamente a definição de algo que foi favorecido pela seleção natural.

2)A SELEÇÃO NATURAL ATUA NO NÍVEL POPULACIONAL

Ao menos para começo de conversa. A frase acima é só um jeito complicado de dizer que esse processo de espalhamento de características nunca vai afetar uma espécie inteira ao mesmo tempo, além de raramente valer para uma espécie inteira de uma vez, mesmo com o passar de milênios e até milhões de anos.

A razão é simples: mesmo com os avanços do transporte moderno e da globalização, as chances de eu me casar com uma tailandesa são muito menores do que as de eu juntar os trapinhos com uma brasileira (tanto que foi a segunda hipótese que acabou acontecendo). Caso eu ou minha mulher sejamos os sortudos portadores de uma mutação no DNA que produza, sei lá, embriões com uma chance de sobrevivência 5% maior que os demais na gestação, a tendência é que essa característica favorecida pela seleção natural só se espalhe inicialmente pela população brasileira, além de talvez trazer consigo desvantagens comparativas caso alcance outra população da nossa espécie mundo afora.

Pode muito bem ser que os cabelos louros e olhos azuis dos britânicos sejam um caso desses, porque talvez eles estejam atrelados geneticamente à pele mais clara que funciona melhor em regiões mais próximas aos polos, quando é necessária a maior sensibilidade à luz solar para que o organismo produza vitamina D (um processo que os pigmentos da pele escura acabam atrapalhando).

Ou pode ter sido seleção sexual, que é um processo basicamente arbitrário: mutações produziram pessoas de cabelos e olhos claros, características inicialmente muito raras que, de repente, começaram a parecer “sexies” do que os cabelos castanhos, talvez simplesmente pela raridade.

De novo: é algo totalmente dependente do contexto local. Em regiões próximas ao Equador, gente loira e de olhos azuis não se daria bem no mundo pré-tecnológico, tanto que essas características não evoluíram em áreas tropicais.

CUIDADO VERSUS PARANOIA

Qual é a solução para evitar mal-entendidos e impedir que esse tipo de pesquisa (e de reportagem) reforce preconceitos, ainda que de maneira totalmente não intencional? Sinceramente, eu não sei. Tem gente que ficaria muito satisfeita se ninguém mais fizesse pesquisas sobre esse tema ou, mesmo se tais estudos existissem, que eles jamais fossem noticiados. Autocensura e pronto.

Não acho que seja esse o caminho, porém. Liberdade intelectual — dentro de limites éticos, óbvio — é o único caminho para que a gente consiga entender como o mundo funciona e, se for o caso, tentar mudá-lo para uma versão mais justa e decente. As diferenças entre as pessoas existem, coisa que a gente consegue comprovar sem nenhum teste de DNA — mas também está claro que elas são relativamente ínfimas perto da imensidade de coisas que todos temos em comum. A tensão entre as duas coisas é parte da riqueza da humanidade. Cabe a sujeitos como eu tentar explicar ambos os lados da equação da maneira mais precisa possível, dentro dos limites estreitos e efêmeros de uma reportagem de jornal.

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