Dilemas de Ediacara

Por Reinaldo José Lopes

Fósseis costumam ser fascinantes (caramba, seres vivos de milhões de anos!) e frustrantes (que cazzo de bicho é esse, meuDeusdocéu?), mas poucos são tão fascinantes e frustrantes quanto os membros da biota de Ediacara, criaturas com cerca de 600 milhões de anos de idade que representam o primeiro florescimento da vida multicelular na Terra e são muito difíceis de analisar. Quase nunca é possível saber qual a relação exata entre essas criaturas e os seres vivos modernos.

Escrevi sobre os mais antigos membros da biota de Ediacara da América do Sul nesta Folha não faz muito tempo. São fósseis da Argentina. Tenho o prazer de apresentar aqui os comentários completos sobre os bichos (?) feitos por uma das pesquisadoras brasileiras que o descreveram, Fernanda Quaglio, da Universidade Federal de Uberlândia (MG). Diga lá, Fernanda!

“De fato, [a questão do parentesco] é um assunto complexo. Como se trata de material muito antigo, realmente a chance de ter afinidade e, mais do que isso, parecer-se com os organismos que existem hoje, é menor. Além disso, são formas muito simples, também dificultando a identificação com um ou outro organismo em particular. Tem ainda outra particularidade, que é a afinidade morfológica com os grupos viventes.

Existe uma discussão na literatura científica sobre o que podem ser essas estruturas discoides, e muito já foi cogitado, desde algas, colônias de fungos, ou mesmo estruturas de origem não biológica, como as formadas por escape de gás. Um aluno de mestrado, orientado pelo Lucas [Warren, também autor da pesquisa] e co-orientado por mim, está estudando justamente o aspecto da afinidade desses discos. Atualmente, o mais aceito é que sejam a base de organismos filtradores, com formato parecido com o de penas ou frondes. Isso porque foram encontrados fósseis com a base (ou seja, os discos) associada com o restante do corpo (ou seja, a porção filtradora) em outros lugares do mundo.

Acontece que a preservação na América do Sul parece ter sido um pouco diferente por ter somente os discos com mais detalhes do que os outros fósseis do mundo. Uma boa analogia é pensar nas pegadas que deixamos na praia, por exemplo.

Simpático esqueminha de como esses organismos podem ter se preservado após a morte
Simpático esqueminha de como esses organismos podem ter se preservado após a morte

Se estamos caminhando, elas serão diferentes de quando estamos correndo. E pegadas frescas terão a aparência diferente de pegadas que já receberam a água de ondas espraiadas. O primeiro caso, por estar relacionado à maneira como o organismo interage com o meio (no nosso exemplo humano, andando ou correndo), dizemos que é um assunto da ecologia, ou paleoecologia no caso de organismos fósseis.

Já o segundo exemplo trata da preservação em si, ou seja, o quanto o regime sedimentar pode apagar ou não aquela evidência. No caso das Aspidella [o tipo de fóssil achado na Argentina], pode ter acontecido algo semelhante, com a diferença de que não seriam marcas ou pegadas, mas sim partes do próprio organismo.

Uma das ideias que se tem é que alguma corrente mais próxima ao fundo possa ter arrancado a porção corporal dos organismos e a levado para outras profundidades, que podem ou não estar preservadas nas rochas de Olavarría [o sítio argentino]. Assim, o que restou foi somente a base, ou seja, a porção discoide. E existem estruturas no material argentino que parecem refletir exatamente isso.

O curioso dos organismos desse intervalo de tempo, chamado Ediacarano, é que parecem ter surgido formas muito diferentes das formas de vida atuais. O grupo a que pertence a Aspidella, chamado Rangeomorpha, reúne os organismos com aspecto de pena ou fronde, provavelmente filtradores (mas ainda há a hipótese de que eles obtinham nutrientes por osmose). Por ser muito diferente, é um grupo à parte, não relacionado diretamente com qualquer grupo vivente. A afinidade provável seria com os animais ou mesmo fungos.

Nenhum desses organismos parece ter sobrevivido para o intervalo de tempo seguinte. Uma hipótese é que, com o surgimento dos organismos representantes de grande parte da biodiversidade que vemos hoje, a dinâmica da coluna d’água mudou. À época dos Rangeomorpha, as águas eram riquíssimas em nutrientes, facilitando a obtenção de nutrientes. Depois, com os organismos vivendo na coluna d’água, a interação dos Rangeomorpha com o meio mudou, a ponto da existência desses organismos não mais ser sustentada.”

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