Encruzilhada primata

Por Reinaldo José Lopes

Acabamos de falar dos macacos vitimados pela febre amarela e pela ignorância humana. E, de fato, a situação das criaturas que são os parentes mais próximos da humanidade na Árvore da Vida não é nada confortável, como contei em reportagem recente nesta Folha. Nada menos que 60% dos primatas deste planeta hoje corre risco de desaparecer. Um ponto importante que não consegui abordar nesse texto, por uma questão de tempo hábil, foram os detalhes da situação dos macacos brasileiros — a gente, afinal de contas, vive no país que tem a maior diversidade de primatas da Terra, com mais de uma centena de espécies.

Tento sanar um pouco esse lacuna com a entrevista abaixo, concedida por um importante trio de especialistas do Brasil: Sidney Gouveia, da Universidade Federal de Sergipe, Ricardo Dobrovolski, da Universidade Federal da Bahia, e Andreas Meyer, da Universidade Federal do Paraná. As respostas foram enviadas por e-mail, em conjunto, então são do trio mesmo, e não de cada um deles. Confira!
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1)Os dados levantados por vocês mostram o Brasil como o grande campeão mundial da biodiversidade de primatas, e ao mesmo tempo a situação no que diz respeito às ameaças de extinção parece menos severa do que em outros países-chave, como Madagáscar. Estamos fazendo razoavelmente bem a lição de casa, ao menos quando comparados a outros países, ou é só porque nossa diversidade é muito grande que os riscos não ficam tão evidentes?

Por ser um país megadiverso, com as maiores extensões de florestas tropicais do mundo, o Brasil estará sempre no centro das discussões globais sobre biodiversidade, para o bem e para o mal. O Brasil fez uma verdadeira revolução na conservação da biodiversidade quando reduziu o desmatamento na Amazônia de mais de 27 mil km2 no ano de 2004 para menos de 4600 km2 no ano de 2012.

No entanto, o Brasil não faz a sua lição quando alterou o Código Florestal, o que parece estar entre as principais causas do recente aumento do desmatamento, especialmente no último ano, quando esse valor foi de quase 8 mil km2. Além disso, outros biomas, especialmente o Cerrado, têm sido severamente destruídos, sem que isso receba a atenção direcionada à Amazônia. Quando falamos nessa perda de vegetação natural, estamos falando na perda de primatas, que dependem de florestas com grande biomassa e complexidade, como são as florestas tropicais, como mostramos em um artigo publicado no periódico Journal of Animal Ecology (Gouveia et al., 2014, Journal of Animal Ecology, 83: 1523-1530).

O Brasil é o país com a maior extensão dessas florestas e também o país campeão em desmatamento. Quando perdemos essas florestas tropicais e outros tipos de vegetação natural, como aquelas que encontramos na Caatinga e nos Campos Sulinos, estamos perdendo não apenas biodiversidade de primatas e outros grupos, mas também serviços ecossistêmicos associados, como comida, água, polinização e dispersão de sementes, realizados por primatas, necessários para a sobrevivência e o bem-estar das pessoas. Espécies de plantas da Mata Atlântica com sementes grandes podem estar ameaçadas pela perda de dispersores, entre eles os primatas.

Esse é o centro da questão: é a principal ameaça à biodiversidade e tem um efeito sinérgico com outras ameaças, ou seja, os efeitos das mudanças climáticas ou da caça são mais graves se continuarmos a destruir a vegetação natural. Temos exemplos de iniciativas importantes que contribuíram para a conservação dos primatas, como o programa de conservação do mico-leão-dourado e do muriqui-do-norte. Além disso existem instituições que desempenham papéis importantes, como é o caso do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Primatas Brasileiros. No entanto, se não atuarmos sobre a perda de hábitat, a nossa biodiversidade, incluindo os primatas, está destinada à extinção.

2)Quais são as áreas e espécies que requerem maior atenção e preocupação neste momento no país, na avaliação de vocês? Além das espécies mais conhecidas da mata atlântica, como os diversos micos-leões e os muriquis, o avanço recente do desmatamento na Amazônia criou alguma situação complicada que não existia uma ou duas décadas atrás?

Os primatas, que conhecemos melhor pela proximidade filogenética (relação de parentesco), são um retrato de toda a biodiversidade. De maneira geral, no Brasil, a maior parte dos problemas estão concentrados na Mata Atlântica, que tem hoje algo como 14% de remanescentes. A cada dois anos o IUCN SSC Primate Specialist Group lança uma publicação com as 25 espécies de primatas mais ameaçados do mundo. Desde 2010, quatro espécies de primatas brasileiros entraram nessa lista: Sapajus flavius e Cebus kaapori, duas espécies de macaco-prego endêmicas das regiões Norte e Nordeste, Alouatta guariba guariba, uma subespécie do bugio-ruivo, endêmico da Mata Atlântica, e o Callicebus barbarabrownae, o guigó-da-caatinga, restrito à caatinga baiana.

Todas essas espécies são hoje criticamente ameaçadas de extinção, principalmente por fatores como perda de habitat e caça. Na Amazônia, algumas espécies já estão na listas de espécies ameaçadas da IUCN, como o bugio-da-mão-vermelha-do-Maranhão, Alouatta ululata, ou o Chiropotes satanas, já afetadas pelo arco do desmatamento amazônico.

E esses exemplos todos dizem respeito à espécies, que são o nível que os biólogos estão acostumados a pensar e a avaliar a crise de extinção. No entanto, há perdas de populações inteiras dessas espécies de primatas, com características genéticas e culturais únicas que são perdidas a cada ano, ainda que isso não altere necessariamente o status de conservação da espécie como um todo, que tem critérios bem rígidos de mudança de categoria de ameaça.

3)Dei uma olhada rápida no trabalho de modelagem do Andreas sobre mudanças climáticas e os micos-leões, que mostrou o risco de desaparecimento deles conforme este século for ficando mais quente. Além deles, há algum outro primata especialmente vulnerável sob essa prisma climático no Brasil?

Há sim. No ano passado, foi publicado um estudo (http://link.springer.com/article/10.1007%2Fs10764-016-9890-4) que avaliou a exposição de primatas às mudanças climáticas numa escala global. O estudo mostra que a maioria das espécies de primatas serão expostas a alterações climáticas até o fim deste século. No Brasil, essa exposição ocorrerá principalmente na Amazônia e na Mata Atlântica, o que representa uma ameaça adicional às espécies que ocorrem nessas regiões.

Além disso, publicamos um estudo no periódico Global Change Ecology (Gouveia et al., 2016 , Global Change Biology, 22: 2003–2012) que avaliou os impactos das mudanças climáticas e das mudanças de uso do solo para 5 espécies de guigós (gênero Callicebus) da Mata Atlântica e da Caatinga, e vimos que a configuração das áreas adequadas para essas espécies deve piorar muito nos próximos anos por conta dessas mudanças. Assim, a conservação da biodiversidade, representada no nosso estudo pelos primatas, está em aberto e vai depender daquilo que fizermos nos próximos anos, especialmente no que diz respeito ao uso do solo. Manter áreas naturais para a conservação da biodiversidade é fundamental para a sobrevivência dessas espécies que são necessárias para a sobrevivência e bem-estar de todos nós.